quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

de cabelos e saudades

o seu cabelo cortado
é tão bonito
quanto seu cabelo comprido.

pois meu amor não é maior ou menor
segundo a quantidade
de cabelo que você tem

já a saudade, essa era enorme,
mas essa saudade que eu sentia
foi embora
na fração de um abraço.

I.R.

estrelas

o sol durante o dia
e as luzes durante a noite
fazem com que nós,
homo sapiens,
homo urbanus,
não olhemos para as estrelas,
e nos esqueçamos
de que somos uma poeirinha
na vastidão do universo,
somos o cisco no olho
de algum deus de muitos braços.

I.R.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

poemas para você

escrever poemas para você,
não é apenas escrever para a musa,
fazer versos de cama e mesa,
obrigar-me
sem ter a certeza do que escrevo.

não.

escrever poemas,
e muito do que escrevo
faço pensando em...
inspirado em...
dedicado a...

você,

é uma arte.

a arte de dizer que
te amo
usando palavras variadas,
procurando não me repetir.

I.R.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

inverso

no anverso da medalha
tenho seu nome gravado
ao lado do meu.

o reverso me lembra
que guardar-me
não é nem mesmo opção.

com carta ou com verso
converso com você.

e me exponho
e me mostro
e me entrego
e me rasgo
e me dou.

I.R.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Carta e Verso - 3 anos




Buenos Aires, 27 de dezembro de 2010

Para quem quiser ler:

os três mosqueteiros, os três patetas, a santíssima trindade, a trimurti, a sagrada família, o salto triplo, as trilogias, os filmes 3D, os três poderes, o triângulo, o tripé, o trio, a regra de três, a regra três, os três patriarcas, as três joias, os três porquinhos, os três sobrinhos do pato donald, o tanakh, as três virtudes, o terceiro olho, os trigêmeos, as três gunas, as três fadas da bela adormecida, a tecnologia 3G, o mp3, três corações, três rios, três lagoas, as três marias, a tríplice fronteira, carta e verso três anos.

Para quem lê sempre, de vez em quando ou leu alguma vez, mesmo que sem querer, muito obrigado. Este blog faz três anos hoje. Três anos de poemas, cartas, música. Três anos de buscas, mudanças, transformações pessoais. Três anos que, no que depender de mim, continuarão sendo escritos por mais três e três anos.

Um abraço,

I.R.

domingo, 26 de dezembro de 2010

levantamento

a leveza do que se sente
se reflete no espelho do
que se escreve.
e a alegria de sentir
faz com que ser leve
me leve pelo espaço,
me eleve,
nas alturas e como ser.
e assim sendo levito,
e assim sou,
levítico,
assim... som...
música breve,
sou saudade
esperando que seu abraço
a releve.

I.R.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Na véspera do Sol Invicto 2



Buenos Aires, 24 de dezembro de 2010

Meu filho,

no ano passado escrevi algumas palavras pra você sobre o Natal. O que escrevi, repito hoje aqui, com algumas alterações e alguns acréscimos.

Antigamente o Natal era uma festa onde se lembrava o nascimento de Jesus (por mais que ele não tenha nascido no dia 25 de dezembro, se é que ele nasceu), e, em função disso, se dava algum presente para os familiares ou mesmo para os amigos mais íntimos.

Hoje, o Natal é a festa de um Papai Noel imposto pela Coca-Cola, onde o que importa é se empanturrar e consumir até não poder mais. Jesus? O único que aparece nas notícias é o ex-namorado da Madonna, o tal de Jesus Luz.

Nesta véspera da festa do Sol Invicto, meu filho, o que quero lembrar a você é que não importam os nomes de Deus nem de seus filhos. Não importam as datas, pois são meras convenções. Importa manter acesa a chama do Amor.

Quero lembrar a você meu filho, que apesar de existirem pessoas racistas, xenofóbicas, preconceituosas, a cor da nossa pele não é importante. Branco, preto, amarelo, cor de cobre, é só melanina, meu filho, e não dignidade ou caráter. Não importa o país onde nascemos, pois o lugar onde nascemos não determina quem somos e como agimos com nossos semelhantes. Não importa nossa classe social, pois não somos mais ou menos honestos ou melhores pessoas se somos pobres ou ricos. O Sol Invicto nasce para todos, meu filho. E devo ser honesto com você, nasce também para os fascistas.

Então, meu filho, comamos, bebamos, ganhemos presentes, mas sem nos esquecermos de que somos uma só humanidade, e que o Amor, o Sol Invicto, deve brilhar e emanar todos os dias de nós.

Um beijo, amo você,

I.R., seu pai.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

alimentação

a felicidade é
o teu beijo no café da manhã
o teu cheiro no almoço
o teu chamego no lanche
o teu gosto no jantar
e o tudo isso como sobremesa

I.R.

domingo, 19 de dezembro de 2010

objetos pessoais

sempre soube
que tinha cds demais.
livros, talvez muitos
para uma só pessoa.
tenho pouca roupa
e hoje menos jaquetas do que ontem,
o que realmente não esperava,
eu que cozinho pouco,
que sou básico,
era ter tantos copos,
pratos,
panelas,
travessas,
formas,
assadeiras,
talheres,
e essas coisas
chatas de se lavar depois de comer.

I.R.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

dedo no poema

Poema do meu pai, (aqui o blog dele: http://eraldomaia.blogspot.com/) que eu resolvi modificar...

eu

eu não sou só eu
eu sou meu pai
minha mãe
vovô alfredo
vovó celina
sou meus avós paternos
juvenal e elisa
sou meus tios e tias
meus primos e primas
sou uma porção de gente
que há em mim

sou meus irmãos
eliana e eneida
duiugue e ju
sou meus sobrinhos
meus filhos
meu neto
sou leninha (a amada)

sou a água que bebo
os vegetais que como
a paisagem que vejo
sou meus amigos e os meus inimigos
sou o presente o passado e o que virá

sou o velho e o novo
sou a matéria e o espírito
sou parte mas também sou o todo

Eraldo Amay (e um toque de I.R.)

I.R.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

122

o amor é egoísta
na medida em que estou bem
se você está bem,
que sou feliz
se você é feliz
e que meu eu
é melhor eu
se está somado ao seu.

I.R.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

saltos ornamentais

às vezes o passo a passo
calça botas de sete léguas
e o que era para ser um suave
ponta de pé de ana botafogo
se torna momentaneamente
um salto triplo de joão do pulo.

e eu, amador e amado,
não me assusto,
não temo,
convido você
a acender as luzes
e ao saltarmos juntos
não fazê-lo no escuro.

I.R.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O que me faz feliz

Não quero ser famoso ou conhecido
Nem que meus versos sejam essenciais,
Prefiro coisas simples ou banais,
As coisas que pra mim tem um sentido.

Preciso ler, bem mais do que ser lido,
E escrever os meus versos naturais,
Versos simples em frases decimais,
De coisas que vivi e tenho vivido.

E o verso nasce só, sozinho sai,
Pois prefiro antes ser um melhor pai,
E evoluir em ser seu companheiro.

Pois seu amor me faz melhor pessoa,
E me transmite tanta coisa boa,
Que então me entrego à vida por inteiro.

I.R.

sábado, 4 de dezembro de 2010

experiência pessoal

há coisas que não entendo,
que não conheço.
há coisas que não vou entender
jamais.
mas a verdade
é que não quero saber de tudo.

a vida é uma aventura no viver
e no não saber,
é um mistério de alegria e tristeza,
um sobe e desce
de emoções contraditórias e concordantes
uma gangorra,
uma roda gigante.

a vida é.

vivo, amo.
e isso me basta.

I.R.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

na hora de dormir

seu perfume no meu nariz,
seu cabelo entre meus dedos,
sua pele,
suas costas,
nossas pernas entrelaçadas...

e a saudade que eu sinto
nesses dias de dormir sozinho.

I.R.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

para meu tomate

meu pequeno tomate,
sabe de uma coisa...
você vale muito mais
do que pensam que você
e o seu trabalho valem.

meu pequeno e gostoso tomate,
você vale horta,
pomar,
feira e mercado central juntos.

e se certas pessoas não sabem,
eu fico feliz por saber.

I.R.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Para minha mãe

29 de novembro de 2010

Como está se tornando tradição neste blog, de vez em quando meu pai aparece com suas participações mais do que especiais. Minha mãe, aproveito para dizer mais uma vez que amo você! Feliz aniversário!

Soneto pelo aniversário da amada

num vinte e nove de novembro (o dia)
nascia a amada lá em Santarém
e quando ela nascia (eu sei) ninguém
sequer pensou que pro meu bem nascia

o tempo se passou e ela sairia
de Santarém pro Rio e ali também
(ao viajar pro Rio) alguém podia
imaginar que vinha pro meu bem?

eu nascera no Rio: estava à espera
da amada que me fora prometida
da amada que (em meu sonho) sempre quis

era o tempo das flores (primavera)
tempo em que sempre se renova a vida
a vida me chegou: fiquei feliz

Eraldo Amay

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Soneto para meu amor

Eu não quero invadir o seu espaço,
Nem me impor ou impor minha presença,
O que quero é igualdade e diferença,
E “recansar” meu corpo em seu regaço.

Viver a vida eu quero, passo a passo,
E quero partilhar da sua crença,
Sentindo essa alegria mais que imensa
De ser o seu tarado e o seu palhaço.

A vida com você, isso é o que eu quero,
A vida construída com esmero,
A existência vivida co' alegria.

Pois com você conheço mais de mim,
E não tenho começo, meio ou fim
Na construção do nosso dia a dia.

I.R.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

programação

notícia boa não vende jornal,
não passa no noticiário,
não interessa a ninguém.
a tragédia vende,
a dor aumenta a audiência
o sofrimento faz ganhar dinheiro,
e a felicidade fica restrita
a eternos 30 segundos de comercial.

I.R.

domingo, 21 de novembro de 2010

meus olhos cheios d'água

às vezes tenho tantas ideias,
tantas emoções
e tantas palavras
circulando pelo meu cérebro
e pelo meu sangue,
que não sei exatamente
como escrevê-las,
como expô-las.

ainda bem que você sabe
que meus olhos cheios d'água
resumem a amizade,
o carinho,o respeito,
o desejo, o amor,
o tudo que sinto por você.

I.R.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

na contra-mão

decido ir na contra-mão,
e escolho a alegria,
como meio de vida,
o sorriso
como forma de subsistência.

para isso não há ciência.

se a morte chega sem avisar,
porque temos de esperar
que a vida se anuncie?
tristeza não tem fim?

vou na contra-mão,
driblando carros,
esquivando motos,
biciletas...

a ponta do iceberg
basta para afundar um navio
e se o ócio é pai de todos os vícios,
a paciência é mãe de todas as virtudes.

escolho ir na contra-mão.
decisão própria
respeitando quem vem enquanto vou,
sabendo que aos poucos
somos cada vez mais.

I.R.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

speedy gonzález

rápido como um raio
que corta o céu,
eu-expresso,eu-ágil,
ultrapasso a barreira do som,
da luz,
veloz,
ligeiro
e me queimo em seu calor.

I.R.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

navegando

quando entramos no barco,
sorrindo,
nos convidamos a algo simples,
trabalhoso, mas simples.
remar juntos.
e sabemos que não basta remar.
é preciso cadência,
ritmo,
e senso de direção.
remar juntos significa
que as decisões
e a limpeza do barco
cabem aos dois.
remamos,
cantamos,
sabemos a que porto queremos chegar.

I.R.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

incomplexo

sou apenas uma peça minúscula
no meio de uma engrenagem,
parte de uma máquina,
que é parte de um maquinário maior.

o que não faz de mim um ser inferior.

sou grão de areia no saara,
gota do oceano que se escapa
do mar na barriga de um peixe,
sou gás metano...
inflamável, incolor e inodoro,

mas nem por isso sou um ser inferior.

tenho dois membros superiores,
dois inferiores,
dois olhos, dois ouvidos, duas narinas,
tenho dois testículos e duas nádegas,
vinte dedos e um pau,
sou ímpar e normal...

mas nem por isso sou um ser superior.

sou poeira cósmica,
incenso queimado em louvor
a algum deus,
sou divino e sou mundano,
sim, eu sou metano
e também metanol.

mas nem por isso e nem assim sou um ser superior.

I.R.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

pausa para o café

chegou aqui e não sabe como,
nem por quê?
tá cansado?
tá com pressa?
larga tudo, meu irmão.
fecha os olhos
e deixa que os tambores
façam o trabalho deles.



I.R.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

criando rios

nasci no rio de janeiro
às margens da baía de guanabara,
mas com a memória
do amazonas e do tapajós
lado a lado nas minhas veias.

nasci perto de rio bonito,
morei perto de rio das ostras,
e na minha retina
não tenho o minho nem o douro
de algum dos meus antepassados...

tenho um novo e próprio rio da prata,
rio com gosto de tereré de tangerina,
criado pelo rio de janeiro
mais o sabor do rio paraná.

I.R.

domingo, 7 de novembro de 2010

bilhete para meu filho



ajudar a que você seja feliz
é uma das minhas metas.
e isso, meu filho,
não se compra, se fabrica.
e não fabrico sozinho,
fazemos juntos
criando sorrisos como esse.

I.R.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

no meio da madrugada

quando no meio da madrugada,
com o corpo cansado,
e a cabeça com sono,
as minhas mãos, tateando
de olhos fechados,
encontram seu corpo,
também cansado e dormindo ao meu lado,
sei que o abraço sonolento
que nos damos
é o melhor anúncio de que a manhã
será o início de um grande dia.

I.R.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A Véspera e A Espera

PS no princípio: Poema do 'senhor' meu pai para a 'senhora' minha mãe, escrito ontem com referência a hoje, dia que completam 43 anos de namoro. A eles, meu amor e meu obrigado mais uma vez pela possibilidade que me deram de estar aqui neste mundo.

I.R.

A VÉSPERA E A ESPERA

a véspera era num dia dos finados
havia um mês que a espera se fazia
no dia da tristeza era a alegria
dos mortos se tornou dos namorados

naqueles corações apaixonados
o amor nascido mais e mais crescia
um fosso foi transposto e nesse dia
a vida unia os que eram separados

o encontro do menino e da menina
teve um começo mas não vai ter fim
perdura mesmo nos momentos vãos

essa união me alegra e me ilumina
enche de luz a amada (como a mim)
no infinito se dar de nossas mãos

Eraldo Amay

Arraial do Cabo, 02 de novembro de 2010

terça-feira, 2 de novembro de 2010

dia de finados

pra mim,
que creio em
algum tipo de vida
após o desaparecimento físico,
chamar o dia de hoje de dia de finados
é usar um termo que em si é uma contradição.

I.R.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Bilhete para 20 mil

Buenos Aires, 01 de novembro de 2010

Prezados,

Já sei que a maioria entrou aqui por acaso. E o mais provável é que essa mesma maioria jamais tenha voltado a entrar neste blog. Mas não posso deixar de pensar que 20 mil visitas, das quais eu devo ser responsável por umas mil, não deixa de ser um número legal.

I.R.

sábado, 30 de outubro de 2010

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

exámen oral

con el ojo en la hoja
donde escribo
el alumno muerde sus dedos y sus dudas

a veces me gustaría darle la respuesta
pero es floja la idea expuesta
y la realidad es que no le puedo ayudar

I.R.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

stricto sensu

num dia de censo
não sei se é contrassenso
esperar que não se conte apenas
o número de pessoas
e se meça quantos somos.

o incenso que acendo
e a oração que faço
é para que os censados
tendo mais senso de justiça
e sendo mais solidários
sejamos o cessar de tanto sofrimento.

I.R.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

no tempo

hoje mais do que ontem
minha cabeça pensa em você;
hoje mais do que ontem
meus órgãos pedem por você;
hoje mais do que ontem
você não é só minha musa,
minha música,
meu amor,
é pessoa que admiro,
respeito,
mulher que desejo.

hoje mais do que ontem.
hoje menos do que amanhã.

I.R.

domingo, 24 de outubro de 2010

facilidade

há mais de 40 anos
meu pai demonstra que
é possível escrever poemas
de amor para uma mesma pessoa

quero essa dificuldade
de sentir que estou escrevendo
algo que já escrevi.
sentir que minhas rimas
já foram usadas
e que meus poemas,
se não foram escritos,
já foram ditos para você.

quero toda essa dificuldade
e o aprendizado constante de uma vida a dois
e a facilidade de te amar.

hoje mais do que ontem.

I.R.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

viver sem você

sabe,
seria exagero meu dizer
que não posso viver sem você.

poderia respirar,
bem ou mal trabalhar,
e escreveria poemas tristes
quando pudesse escrever algum.

seria exagero dizer que sem você
não há vida.
posso viver sem você.

mas sabe,
não quero.
e espero nunca precisar.

viver com você
é olhar o lado positivo da vida,
é dar e receber,
planejar, pretender,
amar e ser amado.
é mergulhar de cabeça
e ser o seu mar
é não ser feliz sozinho,
e ser um e dois ou dois em um... sei lá.

I.R.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

me dijo un amigo


Arte de Patrício Otero - "Tango Rápido"

tengo un amigo amante de la cultura,
de las monedas viejas,
de la música,
de la buena cerveza,
y de su novia,
entre otros tantos amores
que seguro los tendrá.

tengo ese amigo que me dijo,
no, no me dijo,
me dice
con su acento español:

igor, cuando ames,
ama sin miedo,
entrégate sin miedo,
confía sin miedo.
no te guardes nada para ti:
compártelo todo,
entrégalo todo.
sólo así te sentirás completo con quien amas.

qué me queda hacer,
además de cerrarme los ojos
y tirarme al vacío?

I.R.

domingo, 17 de outubro de 2010

versos autorais

não costumava dizer as coisas que digo,
mas não costumava.
agora que digo,
faço e sinto, e você sabe,
sei que dividir soma e multiplica

fazer o que se diz,
sentir o que se faz,
dizer o que se sente
até mesmo sem palavras.

experiências novas...

um homem abandonando as entrelinhas
para mergulhar no texto,
deixando de ser personagem
descobrindo a satisfação de ser autor.

I.R.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

treze de outubro

talvez, se digo dois meses,
me digam que é pouco.
devo dizer sessenta dias
ou mil, quatrocentos e quarenta horas?
melhor se digo oitenta e seis mil e quatrocentos minutos
ou cinco milhões, cento e oitenta e quatro mil segundos?
talvez não deva dizer nada.
medir o infinito não é mesmo uma tarefa fácil.

I.R.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

alguns versos

queria escrever versos bonitos,
versos profundos,
versos que falassem da vida,
da beleza,
do amor.
queria escrever versos de amor para você.
mas meus dedos estão doendo,
minha cabeça está cansada
e não consigo pensar em outra coisa
que não seja a sesta que não vou dormir.

I.R.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

ecdise

como uma serpente
troco as minhas escamas,
deixo minha velha pele
em algum lugar de um chão qualquer.

cresci
e já não entro em meu antigo corpo.
cresci
e minhas ideias,
meus pensamentos,
meus sonhos e realidades
já não cabem no meu antigo corpo

que continua se arrastando por aí.

não ganhei asas, nem pés,
não sei voar nem correr.
mas tenho um corpo novo,
uma pele nova
disposta a ser abandonada
enquanto eu continuar crescendo.

I.R.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Areias novas


Arte: Patrício Otero (Cierto Desierto)

A areia já não pode ser contida,
Crescem dunas, escondem-se caminhos,
E se os homens se sentem tão sozinhos
Talvez não saibam bem sentir a vida.

Eu também tive um' alma entristecida,
Sem ver na própria areia os seus carinhos,
Pensando ser vinagre tantos vinhos,
Sentindo-me faminto e sem comida.

Como quem vive a angústia da miragem
Por anos eu montei um personagem
Que agora eu desconstruo a peito aberto

E nesse mar de areia eu me descubro,
Sou forte, não me escondo, não me encubro,
Não preciso de oásis no deserto.

I.R.

sábado, 2 de outubro de 2010

um poema de amor

muitas vezes os poemas de amor
são considerados bregas,
ridículos,
melosos,
excessivos.

sempre tive vergonha dos poemas de amor,
vergonha própria,
não vergonha alheia...
exteriorizar o que se sente nem sempre é fácil.

mas adeus entrelinhas,
subtexto,
viva a breguice tornada poesia!

pois amo a sua presença
e estar com você,
amo o seu sorriso
e as nossas conversas,
amo a sua delicadeza
e a sua busca por crescer,
amo a sua cama
e as nossas sestas,
amo as nossas sextas
e o nosso presente,
e a construção de um passado,
de um futuro,
e de um pretérito imperfeito do subjuntivo.

I.R.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Cartinha para Santa Edwiges

Buenos Aires, 30 de setembro de 2010

Prezada Santa Edwiges,

já decidi. Na minha próxima encarnação quero nascer rico. E não digo isso porque me interesse os bens materiais ou o desejo de possuir uma fortuna.

Decidi que na próxima vou ser rico apenas para mudar o foco. É que preocupação com o dinheiro nós sempre temos. Ou por ter demais ou, como no meu caso, por ter de menos.

Então no fim do mês é aquela loucura para catar moedas no fundo do cofrinho, raspar aquela mixaria da conta, tomar cuidado para não entrar ainda mais no cheque especial, somar e chorar as dívidas com o cartão de crédito, com o cartão do supermercado e ainda tentar sobreviver com dignidade, sabendo que o salário do começo do mês não cobrirá todas as despesas.

Na próxima, está decidido, quero me preocupar se a bolsa de valores despencou ou não, em quanto está o valor do ouro, de quanto foi o lucro das minhas empresas, se compro um Picasso ou um Van Gogh para a sala, enfim, se contrato mais seguranças por ter medo de ser sequestrado ou se me mudo para Monte Carlo e passo noites me divertindo no cassino, sem pensar na remota possibilidade de falência.

Já tá. Não se discute e não se fala mais nisso. Na próxima, troco minha conta zerada no banco por algum paraíso fiscal.

Um abraço,

I.R.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Cosme e Damião

cosme e damião

rezo a vocês por um mundo justo,
um mundo menos doente.
peço por um mundo em paz
um mundo sem guerra,
sem violência.
um mundo de metralhadoras em silêncio,
facas cegas,
revólveres de calibre zero,
mas cheio,
profundamente cheio
dos mais variados tipos de bala.

I.R.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

chiaroscuro

no escuro,
algumas conversas,
são francas,
claras
e reveladoras.

na intimidade
da escuridão,
algumas conversas
têm a luminosidade
de um milhão de sóis.

I.R.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

escolher

eu escolho
você escolhe
nós escolhemos

e o resto... o tempo dirá.

I.R.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Trigésimo-primeiro bilhete para um world músico

Buenos Aires, 20 de setembro de 2010

Prezado,

alguns domingos, lindos domingos, são domingos diferentes. Domingos cheios de novidades e situações inesperadas. Domingos onde o novo eu se apresenta e se dá a conhecer. Domingos onde o antigo eu renova seu amor pela vida e pela música, esta última também inesperada.



Abraço,

I.R.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

meu furacão


Reuters


enquanto um furacão, xará meu,
assusta o atlântico,
eu, pacífico,
desfruto a brisa
que me refresca todo dia.

Igor

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

pérola ou margarida

fibra,
força,
coragem,
determinação

palavras que parecem soltas,
mas não são,
palavras que ajudam a definir...

carinho,
ternura,
companheirismo,
dedicação,

palavras que parecem isoladas,
mas não estão,
palavras que ajudam a compor...

como um quebra-cabeça,
realismo mágico,
natureza viva,
composição

seu cheiro... seu gosto...
seu sorriso... seu olhar...

você.

agradeço a Adonai pelo seu existir.

I.R.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

adão e eva

depois de comer o fruto proibido,
adão e eva sentiram vergonha da própria nudez.

sejamos sinceros,

eles não sabiam o que estavam perdendo.

I.R.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

31 do 13

não foi ontem aquela noite
em que ajoelhado me aproximei de você,
sentada no sofá.

não foi ontem, nem semana passada,
e se foi somente há um mês,
sabemos que na verdade não foi.

a contagem do tempo às vezes se engana.

um mês e o desejo de muitos anos,
um mês com cara de muitos meses,
e a sensação de outras vidas.

um mês...
31 dias de um dia 13,
uma sexta-feira 13 cheia de boa sorte.

I.R.

sábado, 11 de setembro de 2010

Bilhete para Sarkozy

Buenos Aires, 11 de setembro de 2010

Prezado,
Imagem

este é um pequeno vídeo para que você veja pelo menos um aspecto da cultura dos ciganos.



Cordialmente,

I.R.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

alinhamento

um astro caminha e ocupa o seu lugar
chama um outro
e pede que fique ao seu lado.
dão-se as mãos.
lado a lado,
astro a astro
chamam um terceiro,
um quarto,
toda uma fila de astros
de mãos dadas,
alinhados,
armando um quebra-cabeça que se encaixa
formando uma vida cheia de desafios,
um painel de pensamentos positivos,
a construção contínua da felicidade.

I.R.

domingo, 5 de setembro de 2010

comendo as estrelas

o ponto de interseção
entre a gastronomia
e a astronomia
é o ponto g.

I.R.

sábado, 4 de setembro de 2010

lençol

nem a sua entrada como um furacão
nem seu sorriso e presença imponentes me intimidaram.

você usava um lençol amarelo,
e meu coração vermelho bateu estranho,
como uma espécie de premonição,
que naquele momento não sabia o que era.

hoje, entre seus lençóis,
começo a entender por que não me intimidei.

I.R.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Pérola

Pra dizer o que sinto, chamo o vento,
Mágico mensageiro da alegria,
Garanto que se informe o que eu queria,
Livre pra descobrir um sentimento.

Pra descobrir, descanso, espero e sento,
Madurando dezembro dia-a-dia,
Ganhando fortaleza em ventania,
Lírio que cresce belo a passo lento.

Moldura descobrindo-se sorriso,
Ampulheta partida que preciso,
Gosto de companheira, de mulher.

Assim podemos juntos ser felizes,
Lentamente criando-nos raízes,
Imagem de um querer que mais se quer.

I.R.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

quebrando o gelo

olha as flores...
que lindas!
quero tocar!

olha o foguinho!

as folhas tem formiguinha.

sentado,
vejo de longe.
prefiro não me meter
na conversa dos que se descobrem

I.R.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

mariposa

em cima de uma imensidão azul
meu corpo desperto espera atento
ligado em cada gesto,
em cada bater de asa,
em todo movimento,
à espera,
à espreita,
pronto pra pular
sobre seu corpo
vivo, aceso
e vermelho,
em cima de uma imensidão azul.

despertos,
espertos,
em cada bater de asa,
em toda a extensão lilás
dos nossos corpos,
numa sede que aumenta
à medida que a noite se torna madrugada
e a madrugada se transforma em amanhecer.

I.R.

sábado, 21 de agosto de 2010

tempo vivo

um dia no meio de grãos,
entre centenas de grãos de areia,
senti o toque da vida
de novo no meu rosto.
e no meio da areia centenária,
testemunha ocular
de que a ampulheta se partiu,
o tempo agora é medido
por sorrisos,
brincadeiras,
tambores,
e o gosto de quero mais.

I.R.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

plurissingular

o seu estado é plural,
a sua cidade é plural,
assim como é plural
e também singular
o que sinto por você.

I.R.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

pluralismo

no meio de imagens e terços,
de santos e círios,
abre-se um mundo diverso diante de meus olhos
que aos poucos divisa deuses e japamalas,
budas em meditação,
e derviches em transe,
a lua crescente e a estrela de davi
ao som de múltiplos atabaques
anunciando a chegada de um orixá
e a força do pensamento positivo...

programação para ser feliz...
feliz... vendo uma delicada mão,
beijando a sua mezuzá.

I.R.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

acomodando o novo

tenho tantas emoções juntas
soltas e novas dentro de mim,
que escrever um poema,
uma carta,
um bilhete,
ou até mesmo uma lista de supermercado
se torna uma tarefa quase impossível.

I.R.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Durante

Sobre o meu corpo espremem-se saídas,
Vinte portas se fecham ao meu passo.
Toco nervos, afino cordas de aço
E me deixo prender em várias vidas.

E preso em várias vindas, várias idas
Descanso em cinco sonhos meu cansaço,
Amarro e desamarro este meu laço
De fotos, fantasias conhecidas.

Sobre o meu corpo espremem-se paredes
E me deixo prender em várias redes
Sem saber escapar desse recinto.

Pois a farsa do sim, do não, talvez
Não me dá força ou mesmo lucidez,
Me espreme mais e mais no labirinto.

I.R.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

lá vem o sol

o sol nasce.
às vezes mais,
às vezes menos,
mas nasce pra todos.
não importa se na lapa ou na lapônia,
se no japão ou no jalapão
o sol nasce pra todo mundo
por mais que teimem em tapá-lo.

I.R.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Depois do fim

O que pode exigir o que termina?
Que o deixado sozinho guarde luto,
Que se sinta pequeno, diminuto,
E se finja feliz porque alucina?

Talvez espere um choro numa esquina
Quem sabe um poema triste ou quase bruto?
Mas nada disso é mesmo muito astuto,
É ouro bobo e não ouro de mina.

Porque no amor a fila também anda,
Quem termina se cala como a banda,
Não se queixa, nem tem que reclamar.

E se algo, alguma coisa não gostou,
Saiba que o passarinho já voou,
E você, por favor, vá se catar.

I.R.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

sopro de lírio


Foto: Wikipédia


se a felicidade não está nas coisas,
mas dentro do homem,
onde ela se encontra
quando o homem se transforma em coisa?

o delírio sopra onde quer
e encarna quase sem pedir licença,
fazendo do corpo do homem a sua moradia
lado a lado com a sua alma,
frente a frente com o seu coração.

delírio em flor,
botão de lírio desabrochando,
colorindo e derramando felicidade,
o primeiro, o último e para onde
se encaminham todos os nossos desejos.

I.R.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

dito e não dito

não quero contar o que vivi
nem compartilhar o que senti...
é fácil falar demais.
só digo que sim, foi.
foi, e foi muito,
e espero e pretendo e desejo
que continue sendo.

I.R.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

vento ponteiro

a porta que bate com o vento
fechando o caminho,
não vê o porto ficando para trás.

a fogo lento se cozinham as ideias
ou as palavras,
e a porta e o porto,
antes perto,
agora são um ponto preto
em algum lugar perdido do 'papel'.

I.R.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

desencaixotando

a vida em caixas,
os seres humanos divididos
como numa loja de departamentos,
e a certeza de termos certeza de tudo.

mas...

nem todo dia de sol é um dia bonito
e um dia de chuva não é feio
ao menos para o meu pai e para o homem da roça.
nem todo brasileiro é alegre,
nem todo padre é pedófilo
e tem puta que, sim, beija na boca.

nem sempre a gente é como é.
às vezes a gente é como pode.

I.R.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

as (não) respostas


Foto

certas atitudes não merecem resposta,
por serem afirmações sem perguntas.

atos gratuitos,
desejos inconscientes de sentir-se vítima
e a tranquilidade de que a culpa é sempre alheia.

ou não?

afinal,
não é assim,
não somos sempre vítimas
e nossa dor não é sempre mais insuportável?

a responsabilidade
não é sempre do outro
e que nos leva a fazer o que não queríamos?

não é assim,
afinal?

sim ou não?
não ou sim?

I.R.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

ofício

o vivido e o não,
a experiência própria e a criada,
necessidade mental e física de escrever.

com ou sem forma,
com ou sem verdade,
entrelinhas, subtexto, invenção...

não me procurem apenas no que escrevo.

longa vida aos poemas
longe de quem os escreveu.

poetar: estado limite,
fronteira sem necessidade de passaporte
entre a graça divina e a maldição.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

karma

nem boas nem ruins,
ou boas e ruins ao mesmo tempo.
boa sorte, má sorte,
quem poderá dizer?
a vida é cheia de surpresas,
a vida é cheia de consequencias.

ação e reação movendo a roda.

I.R.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

malandragem

na batida do samba,
no ritmo da percussão,
no sabor do som, nossas bocas
se procuram e se encontram,
se conhecem e se descobrem,
enquanto nos apresentamos
como se fosse a primeira vez
e reaprendemos a saber quem somos.

I.R.

sábado, 24 de julho de 2010

ciclo


Foto: B.L.R.

sólo el sol
y la soledad
pueden cambiar
los destinos
de un ser humano.

I.R.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

meia, meia, meia

nem tudo tem solução
ou remédio
ou paliativo,
nem tudo se resolve
nem tem meia solução.

não acredito em meia intenção,
as intenções se não são plenas...
são falácias,
premissas falsas,
miragem no deserto.

não acredito em papai noel,
não deixo meu sapatinho
ou minha meia na janela
esperando um presente.

outra noite sonhei com a morte,
duas vezes na mesma noite,
mas não me assustei.
não morri.
e se morri,
renasci das cinzas
de dois pacotes de lucky strike.

I.R.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

the end


Foto: B.L.R.

nesta vida em que tudo passa
não sou quem para esperar eternidade.
eterno é o momento que flui
eterno é o instante, o fragmento,

é terno o fim
tanto quanto o durante,

e é passageira a eternidade
em barcos sobre o rio da prata.

tudo é passageiro
e toda dor passageira
é eterna como a imagem
de um pôr-do-sol.

I.R.

sábado, 17 de julho de 2010

menu a la carte

às vezes o corpo,
não, o corpo não,
a cabeça...
às vezes a cabeça pede um pouco de ácido
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
acetilsalicílico.

I.R.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

linha curva

a distância entre o sim e o não
é uma estrada de 'se' e 'talvez'
o limite entre a loucura e a sensatez
é essa distância entre a calma e a ânsia
e o que nos distancia
é o que é.
e o que não é.

a reta talvez seja o caminho mais curto entre dois pontos,
mas o meu é curvo,
longo e sinuoso,
o que somado à minha bagagem,
ora pesada, ora leve,
faz com que poucas viagens sejam fáceis
neste meu fusca 75.

I.R.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

de poeta e de louco

não sou um, dois, cinco ou dez,
sou centenas, sou milhares,
pois há muitos eus convivendo
nem sempre em harmonia
dentro de mim.

eus que não estão separados
e que às vezes agem hora um, hora outro,
mas quase sempre agem juntos,
se entrechocando,
como os carrinhos de um parque de diversões.

em mim co-existem pessoas, personas e personagens,
há um tímido, um extrovertido,
um professor,
um poeta,
um babaca, um pai,
um filho da puta
e um inseguro que busca um pouco de afeto.
há um velho, uma criança,
um namorado, um leitor,
um tranquilo e um ansioso
e um romântico cheio de afeto para dar.
há tantos e talvez tão poucos...

em mim, resistem ideias e se combatem conceitos,
se perdoam pecados e se acumulam defeitos...

em mim habita a esperança que o mim se estilhace
em milhares de mins
e que os eus espalhados fertilizem o solo,
priorizem o todo,
e eu não seja único nem o único a pensar assim.

I.R.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

sem título

não há lugar para as metáforas
nem para as comparações
o poema deve ser simples
objetivo, direto,
dizer apenas
as penas ou os amores
que a gente sente
que às vezes a gente sente
sem lugar para as comparações
ou metáforas
simples no formato
complexo no abstrato das entrelinhas

I.R.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

flower power


Foto: B.L.R.

uma bomba de formas e cores,
cai em mim numa explosão de aromas
durante um ataque sensorial.

um míssil de dimensões suaves,
queima em minhas mãos,
entra por meu nariz e meus poros,
fazendo arder os meus olhos
e o meu coração.

as flores mortas fedem
e as de plástico não têm vida.

é preciso seiva,
é necessário ser da seiva
para que um dia a selva de pedra
venha a sucumbir.

I.R.

domingo, 4 de julho de 2010

quarta-feira, 30 de junho de 2010

processo de criação

um dia na rua,
indo ao trabalho
peguei uma ideia voando sem rumo
e a transformei em algo,
quase um poema.

outro dia, em casa,
uma ideia tocou meu ombro
e pediu para ganhar uns versos
que não sei se depois os leu.

semana passada, distraído eu,
distraída a ideia
nos esbarramos numa esquina
em uma construção espontânea.

no mais,
qual bovino,
uma ideia rumino,
mastigo e remastigo um conceito,
mudo a forma,
modifico o jeito
e deixo que este poema nasça
e cresça quase longe de mim.

I.R.

terça-feira, 29 de junho de 2010

artes plásticas

como se fosse um pintor,
um misto de da vinci
e de picasso,
seguro o pincel,
afino o traço
e pinto os seus cabelos.

natureza super viva.

I.R.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Primeiras linhas


Foto: B.L.R.

Primeiro eu só queria te dizer
Risonho ou inundado de alegria,
Alegre, como há muito não sentia,
Me sinto transbordando de querer.

Assim eu vivo a vida a acontecer
Rápido como um raio, como um dia,
Inundado de força, de energia,
Ardendo de vontade e de prazer.

Revelo então a todos meus segredos,
Esqueço meus temores e meus medos
Buscando ser melhor, um melhor eu.

E me entrego ao querer te querer tanto,
Cuidando com cuidado teu encanto,
Ansioso por viver um beijo teu.

I.R.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Trigésimo bilhete para um world músico

Buenos Aires, 24 de junho de 2010

Prezado,

no mundo das possibilidades da fantasia e das pseudo-reconstruções históricas, o que teria acontecido se Mozart tivesse nascido no novo mundo? E se nascido no novo mundo tivesse sido descendente de escravos. Qual teria sido a sua música se tivesse nascido negro?

Talvez esta seja a resposta:



Um abraço,

I.R.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

luzes da noite


Foto: I.R.

entre os galhos no meio do escuro,
a luz explode
e se faz viva
revivendo o breu,
amansando o medo da escuridão.
entre os galhos no meio da noite,
não há o galho do açoite,
há claridade,
e a embriaguez da paz...
a paz dos galhos iluminados
no meio da cidade dentro do escuro da noite
durante a vida
iluminada e revivida
por meio das lentes da imensidão.

I.R.

domingo, 20 de junho de 2010

verbo em ação

o que os dedos não escrevem,
não digitam,
o verbo que incomoda
em português,
em espanhol,
a língua se encarrega
de transformar em ato
de baixo para cima
áspera
à espera de um gemido seu.

I.R.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

la boca del poeta


Foto: B.L.R.

si esta boca hablara lo que siente,
si contara lo que habla,
lo que hace,
lo que quiere,
si esta boca se partiera
en miles de pequeñas bocas,
estrellas en el cielo de su misma cavidad,
aún así no me alcanzarían las palabras
o los labios
para decirte que hablarte,
besarte, lamerte
morderte
y beber la sangre de tu yugular,
no es más de lo que pretendo,
es la medida justa de lo deseado
es lo que encaja entre mis labios
la dulzura de mi lengua
y la fuerza de mis dientes.

I.R.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

cachorro de feira


Foto: B.L.R.

o olhar não sei se distante
não sei se sereno
ou talvez triste
um pouco cansado
ou só pensativo
não me importa.
me importa o olhar
e me projeto em seus olhos,
o olhar perdido de um cachorro,
tão perdido
e tão cachorro quanto o meu
que olha sério
e sério pensa
e sério pensando não late nem sorri.

I.R.

terça-feira, 15 de junho de 2010

para água

o guarda-chuva a guarda
em pequenas gotas
lágrima e suor
transbordando, escorrendo
de um pano meio plástico
impermeável,
interminável,
um guarda e seu cabo
e seu gosto amargo
uma chuva
que lava ou queima
ácida ou amarga
conforme a ocasião

I.R.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

'Vuvuzelada' a um torcedor

Buenos Aires, 14 de junho de 2010

Prezado,

começou a copa do mundo. E você sabe, ser brasileiro, gostar de futebol, acompanhar um pouco a copa e morar em Buenos Aires é um pouco problemático.

Mas este bilhete não é para falar sobre assistir partidas do Brasil sozinho (por opção) ou ter que trabalhar enquanto a seleção canarinho estiver jogando.

Este bilhete quer apenas perguntar a você... será possível que estas vuvuzelas farão parte da cultura do futebol mundial? Pelamordedeus! Estive procurando a origem do nome vuvuzela e o que encontrei é que não se sabe ao certo de onde vem a palavra. Na minha opinião, 'vuvu' deve ser um tipo de corneta primitiva e 'zela' deve ser um dos nomes do demônio em um dos muitos idiomas sul-africanos. Assim, a vuvuzela é a corneta do demo, do capeta, um instrumento que desanima bastante a já difícil tarefa de ver as até agora chatas partidas da copa 2010.

Um abraço,

I.R.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

tourada

é bom lembrar
que nem todo dia
é dia de toureiro.
às vezes o dia é do touro.





I.R.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

alquimia

as mãos, como soltas no ar,
indicam a fórmula
da transmutação do nada em som.
as mãos friccionam as cordas
apertam os botões
e correm
correm
correm soltas, livres
deslizando sobre as teclas
pretas e brancas
numa brincadeira
cheia de vida, plena de cor.
pequenas mãos
transformando a realidade em sonho,
sonhando um mundo mais bonito.
pequenas mãos,
e as mãos que se unem
fazendo um barulho de agradecimento,
e as nossas mãos,
unidas,
trocando energia
transmutando o som em bem-querer.

I.R.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

refazendo a rota

passo a passo desfaço
peça a peça eu peço
e reconstruo
poça a poça
molhando meus pés
escapando molhado desse puçá.

I.R.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

sorte

sorte? existe sorte,
se não se trabalha,
se não se corre atrás,
se não se vai à luta?

sorte? existe a sorte
de se estar no lugar certo,
de se fazer o adequado,
de que ela bata na sua porta?

existe essa entidade mágica
que tudo oferece,
nada nos nega,
e algo nos dá?

sorte...não sei...
só sei que não posso dar mole para o azar.

I.R.

terça-feira, 25 de maio de 2010

bicentenário


Imagem

terra da prata,
que me acolhe,
me abraça e me dá de comer,
parabéns pelo seu dia.

terra da prata,
que me ensina,
se doa e se dá,
tristeza e alegria,
saúde e alergia,
parabéns pelo aniversário de sua revolução.

terra da prata,
que a memória da tua revolução
seja parte da revelação
de que a prata
não é nada
comparada ao barro
com que é constantemente moldada.

parabéns.

I.R.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

saudade profunda

tem dias que a saudade se sente
quase imperceptível,
e passa, e não faz morada,
some rápido como quem pega o metrô por duas estações.
tem dias que a saudade é como a fome
depois de uma manhã de trabalho
quando o almoço salvador acontece às três.
alguns dias ela é brisa constante,
em outros temporal,
raio, trovão, relâmpago, furacão...
tem dias que a saudade é um monstro
que nos ataca o sonho
pronto para nos devorar.
mas em mim,
que também sofro de todo tipo de saudade,
ela é uma criança,
um amor de criança,
abrindo os braços e me chamando de papai.

I.R.

terça-feira, 18 de maio de 2010

genialidade

no meio desse mundo colorido,
festivo, alegre, pra cima,
sempre há um dia cinza.
mas os dias cinza não me interessam.
me importam os dias albinos,
e toda a música que esses dias trazem.

I.R.



I.R.

sábado, 15 de maio de 2010

Para duas pessoas do dia 15 de maio.

Buenos Aires, 15 de maio de 2010

Queridos aniversariantes,

sempre digo que este blog não é um diário e que meus poemas são independentes, têm vida própria e espero que possam, pelo menos alguns, me sobreviver.

Digo e continuo dizendo isso como forma de preservar minha intimidade, não expor ao mundo o que sinto, o que quero, o que pretendo, o que amo, o que descubro. E sei que isso é bom. Afinal, minha vida não precisa ser um livro aberto, e tenho o direito a ter algo não compartilhado com os demais, sejam os demais quem forem.

Não nego que meus poemas tenham muito de mim, e que possam ser estudados como uma espécie de arqueologia igorravasquiana, fazendo referência ao meu nome, que poucas vezes escrevi por aqui, e que o que sinto ou senti, pretendo ou pretendia, amo, amei, amava, possa ser lido nas entrelinhas ou nas linhas, nas fotos ou nas músicas de todo este espaço.

Mas hoje, meus queridos, pelo menos hoje, quero me comprometer com minhas palavras, assinar claramente o que digo.

Passado e presente juntos. Passado que sempre esteve presente na minha vida e que continua presente, não por costume, mas por amor. Presente novo, em início de construção, que ainda não sabemos aonde vai dar, mas que sentimos que a construção está sendo feita com os ingredientes necessários. E de repente o passado e o presente se encontram num dia 15 de maio.

Que fique registrado que no dia 15 de maio de 2010, meu coração de filho e meu coração de homem estava cheio de alegria, ternura e emoção por poder compartilhar esse momento tão importante em suas vidas. Parabéns, meu pai; parabéns, Becky. Deus, chamem com o nome que quiserem, me permita viver muitos anos mais de momentos como esse, em muitos outros 15 de maio, ao lado de vocês.

Amo você, pai. Te quiero, Becky.

Um beijo no coração de vocês,

Igor Ravasco

PS: 01 de setembro de 2010

O primeiro homenageado desta carta, meu pai, continua sendo meu pai, e espero continuar comemorando seu aniversário por muitíssimos anos. A segunda homenageada resolveu que 2010 seria a única vez em que eu participaria do seu aniversário. Desejo que seja feliz.

I.R.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Bilhete para mim

Buenos Aires, 13 de maio de 2010,

Querido eu,

Entre o trabalho e a alegria imensa, a vida segue, a vida vai, e eu transito com um sorriso no rosto. Entre as dores de cabeça, as aporrinhações e as exigências sem fundamento que não me tiram o sono, a vida segue, vai, e eu, com um sorriso no rosto sei que as alegrias são maiores., (e que a Felicidade ou Deus é mais!).
E que Caetano saúde o dia, enquanto, pouco prosa, tento aprender a escrever prosa, e trabalho antes que o sono me devore.

Certo de que já não sou escravo, me abraço,



I.R.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

La vita...

na vida,
nem sempre se trata de recomeçar,
muitas vezes se trata de re-ser.

I.R.

...è adesso

segunda-feira, 10 de maio de 2010

felicidade


Foto: B.L.R.

a felicidade não se compra
nem se encontra em cada esquina.
não é fácil,
é construção se genuína,
e mesmo sem cair do céu
nos vem de graça,
com esforço e adesão.

a felicidade é gol de craque,
mas não de atacante,
centroavante,
artilheiro.
é gol suado, sofrido, chorado,
gol de beque,
triunfo de zagueiro.

I.R.

sábado, 8 de maio de 2010

frontal

Foto: B.L.R.

sou visto, tocado e lambido,
lambo e toco,
e toco e sinto,
e vejo
a cortina que revela
apenas parte...
um olho preto,
uma boca fechada
que me diz,
que me mostra
o amanhecer alaranjado
onde ver, lamber e tocar
é apenas parte
do processo de ser.

I.R.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Bilhete para um músico bebum

Buenos Aires, 5 de maio de 2010

Prezado,

sei que você é daqueles que dormem abraçados à garrafa. Daqueles que veem as taças e sempre pensam que ela está meio vazia, não meio cheia. E, provavelmente, água, seja um líquido pouco consumido, não? Afinal, água pode enferrujá-lo.

É, meu amigo, mas para a Hydrodaktulopsychicharmonica, o negócio é aguinha na taça, mesmo. Nada de vinho, conhaque ou espumante.

Boa música! À nossa saúde!



I.R.

terça-feira, 4 de maio de 2010

silêncio

os silêncios nunca são iguais...

um silêncio de angústia
outro de perplexidade
algum de tristeza
talvez de saudade
um silêncio de raiva
e o que nada diz
pois tudo está dito

o silêncio à distância
e o que distancia
o silêncio junto
e o que alivia

o silêncio de dor
o silêncio de amor
e o que extasia

os silêncios nunca são iguais...
os silêncios...

um silêncio que vem da boca
e que evoca a alma
um silêncio que fere
outro que acalma
um silêncio que ao viver
sacode ou silencia
um silêncio de amar ou de querer
de chorar ou de prazer
que nada diz
pois a tudo principia.

I.R.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Bilhete de aniversário para o meu filho

Buenos Aires, 3 de maio de 2010

Amado filho,

dentre as milhares de coisas que poderia (e tenho) para escrever para você neste dia do seu aniversário, prefiro escrever apenas uma. Amo você. Amo muito você.



I.R.

domingo, 2 de maio de 2010

suas costas


Foto: B.L.R.

se digo que gosto de suas mãos,
de sua boca,
de seus olhos de gueixa
ou de sua língua,
me torno tão previsível,
não acha?

se falo de suas carícias,
de seus abraços,
de seu carinho,
sou tão óbvio,
tão repetitivo, não é?

talvez não deva dizer nada,
absolutamente nada,
e continuar beijando,
acariciando e lambendo
as suas costas.
percorrendo cada pedaço de suas costas
com mãos e língua,
cobrindo-as com meu peito,
deitado sobre você.

talvez não deva dizer nada,
absolutamente nada,
e tatuar-me em você,
como extensão do seu tribal.

I.R.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

inesperadamente

o inesperado pode ser
pode ter
ou trazer
o que se espera,
o que se quer.
o inesperado, obra do acaso
ou do destino que construímos,
pode ser tecido,
desenrolado como novelo
e descoberto e revelado
pode ser mordido,
digerido e cozinhado,
o inesperado pode ser visto,
ouvido, sentido, tocado,
e entre os seus abraços
e as suas pernas
quero vivê-lo.

I.R.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

elas

passo a passo
e pé ante pé
elas chegam

elas quem...

elas...

a coragem,
a felicidade,
a beleza,
e a vontade,
a preguiça,
a entrega,
e a necessidade de querer mais
...

elas chegam...
chegam e aconchegam
elas vêm e pedem pra ficar.

I.R.

terça-feira, 27 de abril de 2010

rosa

a rosa já desabrochada
exala seu perfume
alegra a vida
inunda a existência.

uma rosa pequena,
frágil ou forte,
amena,
inesperada,
um golpe de sorte,
rosa real,
com pétalas e espinhos.

promessas de dor e de carinho,
rosa rosa,
e rosa 'rossa',
rosa múltipla
como a própria vida.

I.R.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

raggio



a noite cai
e a luz que vem na sua direção
parece um raio

sua tela tem cores fortes

e seu raio branco
me atravessa
os olhos...
a mente...
il cuore...

a noite cai à sua frente
e seu raio me invade
suavemente...

veementemente.

I.R.

sábado, 24 de abril de 2010

imperfeição


Foto: B.L.R.

os tapetes persas não são perfeitos
e suas imperfeições são calculadas,
medidas, trabalhadas, produzidas.
só alá é perfeito,
mas, ainda assim,
cada um desses tapetes,
para nós,
possui uma beleza sublime.

que os santos me desculpem,
mas este mundo não é para eles,
e sim para nós, os com defeito.

não quero ser santo
nem perfeito.
quero ser o melhor possível,
com limites e limitações,
um ser humano...

com dez dedos e onze unhas nos pés,
um joanete no esquerdo,
calos em ambos,
um pé chato, um pé cortado...

imperfeito como um tapete persa
em preto e branco
como rebeldia ao mundo das cores.

um tapete mágico descolorido,
esperando um ônibus pra levantar seu voo.

I.R.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

com as roupas e as armas

ogum...
oxóssi...
jorge...
o nome não importa,
o importante é vencer o dragão.

I.R.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

madeira de lei

510
riqueza,
miséria,
alegria,
tristeza,
nobreza,
plebe,
variedade,
diversidade,
contradição,
lugar de talvez,
em vez de sim ou não,
lugar de será,
de rios grandes,
de ceará,
mato,
praia,
desmato,
montanha,
paraíso e inferno tropical,
onde deus e o diabo descansaram no sétimo dia.

I.R.



I.R.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

segunda chance

se com o tempo mostramos quem é quem,
entro na fila pra pedir mais uma chance.
quero outra encarnação.
talvez assim eu termine de mostram meu quem,
ou meu quê.

uma vida só é pouco,
e mostrar a complexidade de um ser humano
não é fácil.

me esperam linear
me querem previsível
que minha ostra esteja aberta
mostrando a pérola...

minha vida, um livro aberto.

sinto muito.
não sou bíblia pra ser lido,
não sou guia nem manual.
prefiro me conhecer
e ir me mostrando como der.

mas que olhe para a própria trave
quem me atirar a primeira pedra.

nem cristo nem adão,
nem mártir nem carrasco
mostro meu quem, e me mostro,
mas não abram minhas gavetas,
não me investiguem
para dizer depois que a culpa é minha.
quem procura acha.

quero outra encarnação.
busco tempo, mais tempo
pra perder e pra me achar
pra mostrar e para ver
quem é quem.

cada um com seu cada um,
cada qual com seu cada qual,
afinal, uma coisa é uma coisa
e outra coisa é outra coisa,
e num universo em transformação,
o quem de hoje
pode não ser o quem de amanhã.

I.R.

terça-feira, 20 de abril de 2010

energia noturna



um varal cheio de energia
no meio de uma noite iluminada
atravessa a praça
transporta meus pensamentos.

a noite dourada
vela os galhos das árvores
e o olhar que se eleva
como se raízes tivessem.

"pra que tê-las,
se ninguém as vê?"

pra que galhos,
se nada tocam?

o varal cheio de energia
me transporta.
talvez me sente
talvez precise.
em qualquer praça
sempre há um banco vazio.
talvez um dia eu me sente,
talvez sinta vontade de me sentar.

os bancos não têm raízes,
mas estão pregados no chão.

vida semi-estática,
se não fosse o vento,
a energia no varal
e o menino,
borrado,
quase um fantasma,
correndo em minha direção.

um menino cheio de energia
transformando em ação
o sonho de um varal.

I.R.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

domingo, 18 de abril de 2010

tarefas domésticas

se me dão para escolher,
se me perguntam
e minha opinião tem valor,
não quero cozinhar,
pois me falta criatividade,
não quero lavar louça,
porque não gosto de espuma na mão,
não quero varrer,
nem passar pano,
nem aspirar,
nem passar espanador,
já que sou alérgico à poeira.
se me deixam escolher,
se pedem minha opinião
e posso decidir,
quero tábua e ferro de passar
só não digo o porquê.

I.R.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

podendo

não tenho superpoderes
mas não abro mão dos poucos que tenho.
o poder de veto,
o poder de voto,
meu pátrio poder.

I.R.



I.R.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

olho esquerdo



lentamente abro primeiro
o olho esquerdo,
e tiro uma remela,
antes de abrir o outro.

faço isso por superstição,
como quem apoia primeiro o pé direito
na hora de sair da cama.

meu olho esquerdo é menos míope,
mais safo,
e tão castanho quanto o outro.

mas sinto,
por menos astigmático,
que o direito da primazia é seu.

I.R.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Vigésimo-nono bilhete para um world músico

Buenos Aires, 13 de abril de 2010

Prezado,

você sabe dos meus gostos musicais variados, e de como esses gostos me levam a baixar música, a pesquisar e descobrir coisas novas. Não sou um especialista. Simplesmente, tenho um ouvido curioso.

Me chamou atenção nos últimos dias ter visto várias vezes o nome de Karina Buhr em diferentes revistas. Falar dela é também falar de seu antigo grupo, o Comadre Fulozinha. Ouvi Karina Buhr. Gostei. Ouvi o Comadre, e gostei também.

Aí descobri que outra dessas mulheres, Alessandra Leão, também gravou sozinha.

É, meu amigo, o Brasil não produz apenas jogadores de qualidade em série. Novas cantoras surgem todos os dias em qualquer parte do país.

Confira:



Um abraço,

I.R.

domingo, 11 de abril de 2010

vida em ré

às vezes é necessário
nos redescobrirmos,
ou nos reinventarmos.

necessário nos é,
normalmente,
recomeçar.
reolhar o antigo,
reaproveitar o velho,
desconstruir o estabelecido.

um novo enfoque
para os vagões que acumulamos
durante a viagem.

I.R.



I.R.

sábado, 10 de abril de 2010

contra o dragão da maldade

num mundo de luta de classes,
colonialismo,
imperialismo,
escravidão,
a panela de pressão parece que vai explodir.

vê-se um povo oprimido,
vende-se um sorriso amarelo,
um gemido,
enquanto a dor silenciosa
dissimula a opressão.

e nesse mundo de opressão,
lutar é pouco.
precisamos nos rebelar,
nos organizar,
ir à guerra.

guerrilha, trincheira,
estratégia, tática
numa luta sem armas,
mas sem rendição.

uma guerra eterna.

pois enquanto houver opressão,
não podemos deixar
a luta ter fim.

I.R.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

amor de pai



meu filho não me inspira um poema,
uma rima,
uma forma,
uma fórmula.

meu filho me ensina
traduz
e me traz e recebe de mim
o mais doido e doído amor.

I.R.

terça-feira, 6 de abril de 2010

realismo

la realidad
es verbo
es ser
y necesitar
y querer
ir y volver
desear
y volar.

la realidad es magia
y la perfección
por suerte
no existe.

I.R.

domingo, 4 de abril de 2010

Bilhete para um ex-aluno músico

Arraial do Cabo, 4 de abril de 2010

Prezado,

depois de muitos anos encontrei você por acaso perto do meu novo apartamento. Paramos para conversar alguns minutos, e você me disse que tinha tocado em um bar a dois quarteirões dali. Me lembro que nesse momento eu ri e perguntei se você continuava com essa vida de músico. Você sorriu em resposta e me disse que sempre.

Então confesso que depois de ter ouvido sua música, que de instável tem apenas o nome de seu conjunto, espero poder revê-lo em alguma apresentação sua.

Um abraço,

I.R.



I.R.

sábado, 3 de abril de 2010

no quintal de casa / en el patio de casa


Foto

ter o azul do mar
e o ruído das ondas
no quintal de casa
é quase poder ouvir uma sinfonia.

mas é pintar um painel azulado
com areia branca
e um sol
indo do amarelo ao laranja
num quadro vivo.

é pintar um mural de sensações azuladas
e soluções anatômicas.

é criar uma melodia parada em um tempo visual.

o azul do mar e do céu,
a areia e a espuma branca das ondas,
o sol em mudança de cor,

e o pintor...

ator coadjuvante engolido pelo infinito.

I.R.


tener el azul del mar
y el ruido de las olas
en el patio de casa
es casi poder oír una sinfonía.

pero es pintar un panel azulado
con arena blanca
y un sol
yendo del amarillo al naranja
en un cuadro vivo.

es pintar un mural de sensaciones azuladas
y soluciones anatómicas.

es crear una melodía detenida en un tiempo visual.

el azul del mar y del cielo,
la arena y la espuma blanca de las olas,
el sol en cambio de color,

y el pintor...

actor secundario tragado por el infinito.

I.R.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

em frente

com a faca no pescoço
ou nos testículos,
sigo em frente.

é preciso ter coragem,
escolher ser feliz,
apesar dos altos e baixos

tem gente que gosta do sofrimento
e o procura por necessidade,
masoquismo
ou inércia.

prefiro a faca apontada para o peito
e a vista no parapeito
de um voo de parapente,
que me diz

é preciso ser forte.
é preciso não temer.

I.R.



I.R.

terça-feira, 30 de março de 2010

quadro 2

o sol quer sumir atrás da nuvem na praia grande

pra pintar um quadro onde sou personagem,


sendo natureza,

tendo o corpo feito de areia,

meus cabelos são algas,

conchas, peixes, mariscos me dão forma,


meu coração é um polvo batendo no peito


e embaixo de céu azul,

ou sobre oceano de mesma cor,

tenho um mar nas veias,

por onde o sal corre,

e o sol pousa

na espuma daquelas ondas moles

que transbordam o duro ângulo

que morre


I.R. e J.C.

domingo, 28 de março de 2010

asas

as asas do avião quase não se mexem,
balançam suavemente fora da turbulência.
não durmo, mas também não vigio.
as asas quase não se mexem,
e o avião entra e sai com suavidade da área de instabilidade.
não há pássaros do lado de fora.
eles ficaram a quilômetros abaixo de mim.
suas asas se mexem,
seu corpos se movem
enquanto vão rumo ao sul, ao norte
aos peixes ou à carne morta.
as asas do avião não são como as das aves,
e as de ícaro.
este, coitado, viu as suas se derreterem no ar.

I.R.

sábado, 27 de março de 2010

por conta própria

a vantagem de saber o que quero
é não me preocupar mais
com o que querem de mim.
tijolo por tijolo,
cubo por cubo,
vão na tua,
vou na minha.

a vantagem de saber que não me preocupo
é não querer mais
o que exigem de mim.
tenho meus trilhos,
descubro meus atalhos,
vão na tua,
vou na minha,

e a gente (não) se vê.

I.R.


I.R.

quinta-feira, 25 de março de 2010

atravessando o samba


passo a passo
o passo do passista
passa pelo passeio público
e o descompasso
entre o privado
e a privada exposta
é o marcapasso
do seu tamborim.

I.R.

quarta-feira, 24 de março de 2010

dos deuses

entre mundo e mundo,
imundo ou limpo,
desço do olimpo
babando néctar,
arrotando ambrosia,
pamonha,
enrolado num lençol,
mordendo uma fronha,
com meus cascos duros
pisando macio.

I.R.

terça-feira, 23 de março de 2010

Bilhete-convite

Buenos Aires, 23 de março de 2010

Prezado,

se é a primeira vez que você, sem querer ou por querer, vem parar neste blog. Se você é frequentador assíduo, esporádico, bissexto, não importa. Queria que você soubesse que hoje não tenho vontade e/ou interesse em escrever algo novo.

O Carta e Verso tem mais de 600 entradas. Então, se você gosta, gostou, quer gostar, dá uma fuçada nele. Leia poemas, delírios, cartas, que nunca leu. Deixe-se levar pelos títulos.

Se quiser deixar algum comentário, sinta-se à vontade.

Um abraço,

I.R.

segunda-feira, 22 de março de 2010

bode

tem dias
que a vontade no fundo do peito
é escrever poemas sofridos,
músicas de dor-de-cotovelo.

algo como tomar um uísque
ouvindo maysa matarazzo.

são dias de fundo do poço,
dias down,
dias de bode.

e nada melhor para apagá-lo
do que uma esponja.

I.R.


Foto: S.X.

sábado, 20 de março de 2010

quebra-cabeça

uma contradição visceral,
um existencialismo lisérgico,

sou
a primeira pessoa
em forme de arte.

unitário em partes,

dividido em todos.

I.R.



I.R.


quinta-feira, 18 de março de 2010

rodapé

minhas águas são tão profundas
quanto às da lagoa de monte alto
onde entro metros
molhando não mais do que o joelho

general?
não chego nem a soldado raso.

machado de assis?
leio agatha christie.
nietzsche? joão gilberto?
não vi a novela. dodô vai mal.
van gogh? aumentou a carne.
joyce, pessoa, sartre,
glauber, godard?
tô com preguiça.

meu joelho,
enrugado como o de um velho.

melho escandir o verso.

efe-ó-dê-a-hífen-esse-é.

I.R.

quarta-feira, 17 de março de 2010

De-Grau

As grades peneirando o céu escuro
Encarceram estrelas e meu canto,
Me lembram sutilmente 'não sou santo',
Mas grades eu prefiro em vez de muro.

Os grandes e seus sonhos... sonho duro...
Realidade sem riso, mas sem pranto,
Sem juízo, julgamento, um querer tanto,
Lembrando sutilmente 'não sou puro'.

A glande, e uma miragem vira um sonho
E um degradê e um medo tão medonho,
Já nem sei se isso eu penso ou se isso eu sinto.

Mas grandes grades cercam minha mente,
E eu minto, omito, como, estando ausente,
Sou fauno a me perder num labirinto.

I.R.

terça-feira, 16 de março de 2010

eco-ar-ão


Foto: S.X.

o sol,
a ida,
a saída,
a solidão.
verbo nas entrelinhas,
poema substantivo,
adjetivo,
a solução.
sol, ida, solidão sólida,
ecos do ão.

I.R.


I.R.

segunda-feira, 15 de março de 2010

paraíso

o paraíso é uma janela entreaberta,
uma fresta,
uma festa.

o paraíso e sua cúpula,
ou suas paredes,
é uma cortina,
uma persiana escancarada.

o paraíso é pra sentir,
pra provar,
pra comer,
pro prazer,
o paraíso é para isso,
para isso a se perder.

I.R.

domingo, 14 de março de 2010

ferina

a palavra que fere
nem sempre dita,
pronunciada,
bendita
maldita
se esconde na ponta da língua
se enfeita,
à espreita,
amadurece,
a ponto de estremecer
ao entrar em ação.


I.R.

quinta-feira, 11 de março de 2010

quiçá

a azia
a acidez
a sensação
a insensatez
o poema
um problema
o nada
o sim
o não
o vinho, o pão
um dia
talvez

I.R.

quarta-feira, 10 de março de 2010

fogo eterno

minha alma clara,
manchada, suja, imunda,
atire a primeira pedra...
não faz de mim uma aberração.
minha alma clara,
minha boa essência,
(não tenho histórico,
tenho prontuário),
manchadas, sujas,
pau de galinheiro,
atire a primeira pedra...
minha alma clara,
minhas contradições,
minha filhadaputice,
minha falta de caráter,
minha nobreza,
atirem a primeira pedra...


I.R.

terça-feira, 9 de março de 2010

do hermetismo superficial

estar sem internet
não ajuda a atualizar um blog.
revirar o passado,
rever erros,
mastigar feridas,
fracassos,
repensar fatos,
feitos,
atos,
nem sempre ajuda a escrever um poema.

I.R.

sábado, 6 de março de 2010

pé no chão

a lua
cheia
ou mordida como um biscoito
nada me inspira.
não é pura,
não é musa
não é puta,
não é nada.
...
satélite,
corpo celeste,
girando ao redor da terra.

I.R.

sexta-feira, 5 de março de 2010

primeira pessoa

talvez eu só saiba escrever
na primeira pessoa,
de mim, de eu,
por mais que este eu
já seja poético
e não meu eu mesmo.
talvez só saiba escrever
do que sinto,
ainda que um poema
não seja um diário
e o que sinto
não sou só eu em quem sente,
mas também o tal poético,
o outro eu.
ou talvez não sinta nada,
mas escrevo em eu
por não saber sentir diferente.

I.R.