sexta-feira, 25 de agosto de 2023

periódica

então a melodia de todo dia,
que não entoa à toa no meu ouvido,
não tem olvido,
e produz o que já tinha feito,
o efeito de me lembrar
que toda hora é instante
e que sou constante
na incoerência, na impermanência,
na volatilidade do pensamento,
na velocidade pulsante do meu músculo cardíaco.

I.R.

sábado, 19 de agosto de 2023

música

no diálogo nem sempre amoroso,
nem sempre amigável
entre a emoção e a razão,
os fantasmas fazem a festa
e os sintomas saltam pelos poros.
penso onde moro,
não a cidade, mas onde habito,
a inspiração, o conflito,
um coração pulsante e um cérebro carcomido,
grito de alerta, de alegria e gemido,
perguntas não respondidas,
perguntas em demasia,
silêncios, entrelinhas,
falsas expectativas, falsas interpretações,
falácias, verdades, mensagens,
o vaivém da intimidade,
não numa vida que segue,
mas nesta única que se vive.
vãobora, que por hoje eu tô bem.

I.R.


segunda-feira, 14 de agosto de 2023

suspiro

era sonhos e não olhos,
pois não se trata do que se vê,
senão do que não se vê,
mas se ouve e se sente,
se deseja e se delira,
enquanto a mente gira num jogo onírico,
e se imagina,
e se constroem imagens.
era sonhos e não olhos,
metáfora perdida,
engolida por uma voz afinada
em meio a uma linda melodia,
mudando uma frase
que antes ardia
a outra que já não diz nada

I.R.

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

simulacro

à sombra da vela,
não sobra coragem,
e a boca que beija, que cala,
que grita e que ri, saboreia a miragem - 
espelhismos coloridos -,
flor de ganja, cor de açaí...
barco que soçobra,
que cobra o (in)seguro da obra em construção.
navegar nem sempre é precisão,
e minhas frações compostas
se mostram repartidas entre sargaços,
num mar de algarismos e algoritmos
no ritmo das ondas, seguindo as estrelas
de uma via láctea imprecisa.
preciso da vela pra iluminar a caverna,
ou de uma lanterna que brilhe como o sol...

ou como sou

I.R.

domingo, 6 de agosto de 2023

pragmatismo poético

eu não sou um ornamento rococó,
que é bonito, mas muito rebuscado,
gosto do verso livre emocionado,
das palavras em uso e isso só.

não quero afinação pesada em dó,
mas tento estar, no mínimo, afinado,
me quero leve, em vez de preocupado,
me quero vivo, enquanto não for pó.

eu-lírico não lírico, mas prático,
vivo versos em modo pragmático,
e buscando a eficácia todo dia,

recebo o que me chega com consciência,
que os problemas se tornem eficiência,
eu-prático em estado de poesia.

I.R.

terça-feira, 1 de agosto de 2023

AI de mim

meu amor, por mais genial,
não há inteligência artificial
que sinta a emoção de escrever.
as máquinas manipulam as palavras,
mas não sentem seu sabor,
escrevem poemas melhores que os meus,
que só faço rascunhos,
mas não sentem meu sofrimento,
não vivem o frisson da paixão
nos poemas que escrevo pra você.
a tecnologia não finge que é dor,
a dor que deveras sente, porque não sente.
não tem magia, suingue, borogodó,
tem o mais vil charlatanismo da palavra morta.
chatgpt, bing, bard... prefiro ser o bardo, enfim,
o que anuncia o que já não guardo,
e te entrego em versos um pedaço de mim.

I.R.