quarta-feira, 16 de agosto de 2017

ciclovia

Foto: Igor Ravasco

o caminho é sempre de pedra,
pois não há sonho no asfalto.
e numa vida sem roteiro,
talvez o primeiro
seja arriscar,
porque a vara que mede
não é a mesma que pesca,
road trip de bike,
pescaria de ideias, de emoções...
as sensações batendo no rosto
como se fossem o vento,
o vento embalando o sonho...
sonho meu, sonho nosso,
o que eu quero e o que eu posso
é não parar de pedalar

I.R.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

quinze minutos de claustrofobia

na arte da viagem,
de onde sai um, entram três,
os corpos unidos, colados,
compartilhando o hálito
e as câimbras,
os cheiros, os suores,
aquele silêncio incômodo...
e um estar só,
sem estar sozinho...
poucos quilômetros
que são uma maratona,
corrida matutina
sem espaço,
sem ar,
sem dignidade...
na arte da viagem,
não há arte,
há capitalismo selvagem
e claustrofobia.

I.R.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

poemas de amor

não posso escrever poemas de amor,
nem cartas de amor
ou canções apaixonadas...
não se trata de ter medo
ou descrer dos contos de fadas...
não posso.
prefiro a conversa ao pé do ouvido,
seu perfume, seu abraço amigo...
eu com você e você comigo.
talvez eu possa,
mas não quero escrever poemas de amor.
prefiro seu calor
e tudo de bom que você me traz

I.R.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

tô à toa

tô à toa,
em posição de loto
deitado no mato...
tô curtindo o recato,
vivendo o recanto...
tô à toa,
da mudez do cracatoa
à nudez disposta em ato.
tô à toa...
na ponta da flecha,
na ponta da língua,
afiei meu curare

I.R.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

ojo de poeta

Foto: Ruben Gelati

ojos poéticos se multiplican
por sobre las rejas,
y sobrepasan las duras puntas
que hieren,
lanzas puntiagudas que lastiman...
ojos poéticos se abren en colores,
y tal vez suavicen la realidad...
o los dolores...
tal vez simulen
o emulen una verdad...
ojos poéticos se multiplican
como agujeros negros,
que están por ahí, que existen,
pero no logramos saber
exactamente para qué

I.R.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

na fala

na fala que flui como um rio,
eu rio quando você sorri.
e se não estamos sós,
e se estamos com...
compartilha, soma,
não verdade e resignificação.
na fala que flui como um rio,
há selfies e fotos sem flash

I.R.

sábado, 8 de julho de 2017

do acaso

Foto: Igor Ravasco

roda o moinho que abraça o vento,
meu cata-vento que canta
por um caminho de mãos dadas
em ruas empedradas.
tudo é por acaso,
menos o significado que lhe dou

I.R.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

claridade

mudanças de plano aplicadas
a partir da alegria,
geram o desejo
de registrar este dia,
enquanto a manhã clareia,
e o sol ressurge,
como pano de fundo,
no rio da prata.
nem simples nem profundo,
simplesmente vivo.
vivo e sou.
e o sol clareia
minhas ideias claras

I.R.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

madrugada de jueves

caritas y 'carotas',
pero no caretas,
sin etiquetas, solo franquezas...
fortalezas y debilidades,
intensidades,
que nos unen en esta experiencia.
no hay manual, no hay ciencia,
solo las ganas de abandonar la caverna

I.R.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

indivisível

a vontade de agir
é o princípio da ação,
e o principal é não me dividir
entre cérebro e coração,
porque o que a biologia uniu,
a literatura não separe...
o de dentro, o de fora,
o que mostro e o que guardo,
é tudo parte do todo,
minha bagagem, não meu fardo

I.R.

domingo, 11 de junho de 2017

tupper

a falta que a fagulha faz
traz a falta da chama.
não há faísca nem centelha,
só o breu que não emparelha,
só o outro, só o eu...
somente a luz,
escondida em vasilhas de plástico,
flash antiestático,
o ceticismo do cético,
carregado de paixão

I.R.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

eu e tu

Foto: Igor Ravasco


filho,
não há estrada ou trilho
que já esteja marcado...
tudo é passageiro,
menos nós,
que devemos dirigir nossos passos
e nos unirmos em abraços com a vida.
talvez deus não exista,
mas resista ao desamor.
vamos deixar nossas sombras,
nossas marcas, por onde passamos.
vamos ser mais humanos...
façamos da ponte
nosso canto de união

I.R.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

ergo

não sou nostálgico da inocência perdida,
com tudo o que isso significa,
com tudo o que isso traz...
a ausência da paz
sem guerra indefinida,
a consciência do inconsciente,
de não ser príncipe nem sapo,
encantador ou encantado,
mas o que vai ao lado...
questiono demais
e todo o tempo piso o rabo
de minhas posições firmes.
penso, logo me contradigo.

I.R.

domingo, 28 de maio de 2017

graxa









passo a limpo meus rascunhos,
lustro meus pensamentos,
enquanto cliques 
e clichês se sucedem...
passado e presente se unem
numa estrela cadente
numa tela candente,
em preto e branco
e em tons de azul...

I.R.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

da antinomia e do antimônio

entre o antônio e o anônimo
há o antônimo,
oposição de ideias,
ser assincrônico...
entre o sim e o sinônimo
não há mulher, homem
ou homônimo,
mas o monótomo,
átomo sem hormônio,
ser sem nome,
senha e harmonia,
fome de caos,
forma de cães que mordem
além de ladrar

I.R.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

disfarce

não oculto nem revelo,
não me descabelo,
eu, inculto, entre ignorantes
conhecedores de tudo.
não sou um livro aberto
nem enciclopédia de consulta...
a paciência é pouca,
a paciência é muita...
na arte do ocultamento
não há encantamento,
mas me disfarço de igor
sempre que vou por aí.

I.R.

sábado, 13 de maio de 2017

arquitetando

o brilho que se vê em cada janela,
não revela o mistério,
não conhece critério,
só ilumina,
como o sol da meia-noite.
a palavra delineada,
escrita ou falada,
desvela os segredos,
desnuda os medos,
arma projetos arquitetônicos...
a arquitetura do sonho,
onde componho o sou

I.R.

terça-feira, 9 de maio de 2017

tempo de alquimia

Foto: Igor Ravasco

no tom do tango,
no som do samba,
não fui tanto nem fui bamba.
não batuquei,
não dancei,
não chorei com a cuíca
nem gemi com o bandoneón...
mas ouvi...
e senti...

e então gemi,
e aí chorei

I.R.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

sobre a conversa

a conversa é uma estrada
sem necessidade de chegada
quando nas bolsas
e nas bocas
não levamos armas
e se não ensino e aprendo,
se falo, não me calo ou não me rendo,
se não curto o caminho longo,
e me encurto
para dar espaço ao diálogo,
a conversa não é conversa,
é monólogo,
palavra jogada fora,
mundo afora...
garganta seca, perda de tempo
e bolha nos pés.

I.R.

domingo, 23 de abril de 2017

antes de ser oceano

Foto: Adriano Mello

sou gota de chuva
escorrendo no para-brisa,
virando filete de gotas de chuva...
sou fio de água
que corre sem mágoa rumo ao bueiro...
sou partes por inteiro,
faço artes, pinto o sete,
sou água pluvial que cai num rio...
e sorrio ao pensar meu destino,
(menino que crê no acaso
e no ocaso de cada amanhecer)
sou afluente,
caudal que deságua n'outro rio,
que continua fio d'água
a caminho do mar

I.R.

terça-feira, 18 de abril de 2017

contra a indiferença

o rio de dor é vermelho sangue,
que jorra de corpos inocentes...
matando gentes
na síria, na palestina, na nigéria,
na miséria do dia a dia
na frança ou no afeganistão...
na falta de justiça e na ausência de pão.
um iraquiano não é menos pessoa
do que um inglês,
nem um cristão melhor que um muçulmano...
um judeu, um budista, um coreano,
do sul ou do norte,
ninguém está entregue à própria sorte,
somos marionetes
nas mãos nos interesses de poucos,
fantoches nos dedos dos fabricantes
e dos traficantes de armas...
desarmados, inclusive, de amor

I.R.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

termostato

o frio que você sente
não é o clima que sinto.
a água que quente te acaricia,
me abraça como água fria...
termostato diferente,
liberdade de ação,
indivíduos na sensação
com desejo de compartir,
a ânsia sem ansiedade,
ação de liberdade,
no exercício de sentir.

I.R.

sábado, 8 de abril de 2017

desconectados

facebook, instagram,
whatsapp, snapchat...
todos com suas fotos,
suas... nossas histórias...
em momento real...
onde somos personagens
de nosso próprio reality,
e espectadores,
sem muita expectativa,
do bbb dos outros.
fora da tela, as pessoas que apreciamos,
as que amamos
e as que não conhecemos,
essas que chamamos de amigos,
sofrem, se alegram, são...
elas vivem e morrem
e às vezes demoramos anos pra saber

I.R.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

do deserto

Arte: Fernanda Silveira de Souza

é preciso ou eu preciso passar o deserto,
quarenta dias, quarenta anos,
o incerto de todos os planos,
a sorte da vida antes da morte...
destino traçado com o próprio punho,
na ponta do lápis, na crina do pincel.
talvez um cacto marque o caminho,
quem sabe um pacto vem de mansinho,
solto ao sol, descoberto ao léu...

I.R.

sábado, 25 de março de 2017

intérprete

interpreto,
mais de longe do que de perto,
sem os recursos necessários pra interpretar.
interpreto sem texto,
sob o pretexto e a vaidade,
de que minha leitura é verdade,
não só mera interpretação.

I.R.

segunda-feira, 20 de março de 2017

atividade vulcânica

depois do magma, da lava,
das cinzas e dos gases,
do caos que arrasou pompeia
e das extinções ao norte de pangeia
depois de formar ilhas,
nascer a leste de tordesilhas,
solto fumaça
como quem fuma um charuto velho...
sou vulcão quase inativo,
previsível...
usando o verbo à toa,
já não sou krakatoa que transborda de eflúvio.
já não sou vesúvio...

talvez já não haja o que arrasar

I.R.

domingo, 12 de março de 2017

teórico-prático

todo bom conselho,
toda receita de vida,
manuais de felicidade
e guias de autosuperação,
são ainda mais fáceis de seguir
quando somos só espectadores...
meros participantes
dos problemas alheios.
mas na própria pele,
quando perdemos filtros e freios,
é que nossa razão também repele
o que supostamente sabemos...
saber não é conhecer
ou vice-versa...
caminho de teorias...
até a teoria se fazer carne
e habitar entre nós

I.R.

segunda-feira, 6 de março de 2017

para pitágoras

admiro os números e suas fórmulas,
invejo seus resultados exatos,
sua certeza dentro do abstrato,
mas trilho a imperfeição da palavra,
o caminho dos problemas da interpretação,
a traição no ato de traduzir

I.R.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Nas pegadas do pai

Caminhando pela areia da praia:

- Papai, quero caminhar pisando nas suas pegadas. Diz, pisando nas marcas que deixo na areia.
- Tudo bem, meu filho. Mas você também pode fazer suas próprias pegadas.
- É, pai. É melhor eu fazer minhas pegadas. Diz, agora caminhando a meu lado.
- Cada um faz seu próprio caminho e suas próprias pegadas, filho.
- É, pai. Eu vou criar minhas pegadas, mas agora prefiro andar nas suas. Diz, voltando a pisar nas marcas que deixo na areia.
- Por que prefere?
- Prefiro andar nas suas pegadas enquanto sou criança, para não me machucar. Você olha bem onde pisa e não vou cortar meu pé.

I.R. e S.R.P.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

qual caracol

Foto: Neder Marchito

carrego meus pensamentos,
meus sentimentos,
meu passado e meu presente,
trago no corpo e na mente
minha casa, meu esqueleto,
que crescem comigo,
que mudam junto comigo.
vida que é vivida,
que eu carrego no tempero,
sempre evitando o sal

I.R.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

baires 19

hay bares y baires,
bajo los aires
en que elegí vivir.
hay universidades y templos,
un compilado de momentos,
hay clases y traducciones,
subtitulado,
hay portugués
y español del río de la plata,
pero plata hay poca.
hay una city loca
en una relación de amor y amor.
hay amigos, amores,
gente con quien comparto
historias donde soy protagónico
o actor de reparto,
mi historia,
viva en mi memoria,
vivida a cada día

I.R.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

direcionado

Foto: Sasha Ivanovic

a direção não é obrigatória
não é compulsória...
o caminho de cada um
é cada um que faz,
a direção é cada qual que dá.
não sei quanto dura,
aonde vai,
ou se as futuras gerações
terão futuro...
num mundo cheio de muros,
as setas não deveriam obrigar.
siga? o que o coração mandar,
como eu sigo minhas metas... incertas,
quase sem direção...
pois não tenho estrada obrigatória,
compulsória...
só tenho um norte,
que talvez me leve ao sul

I.R.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

cercado

Foto: Silas Campos

as cercas que me cercam
se oxidam
e o oxigênio que invisto
para encontrar novas formas de prisão
me enferruja
não sou coruja sábia
nem raposa esperta
nem sempre estou alerta
às trapaças e aos autoenganos...
mas rasgo as roupas,
esfolo a pele,
arranho a alma na lama...
nem sempre tenho um alicate à mão

I.R.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

living mask

Foto: Krzysztof Szuskiewicz

por trás da máscara que tiro
há outra máscara que tiro
e outra que arranco
e outra e mais outra
como camadas de cebola,
como a própria pele...

anjo e demônio,
santo e pecador,
aluno, professor...
por trás das máscaras,
por trás das marcas...

disse um poeta
que somos a cara que temos...
mas se renovamos máscaras,
que cara temos?
que cara somos?

por trás da máscara que uso
há outras máscaras que uso

I.R.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

de mãos dadas

Foto: Marcus Vianna

sem importar a cor da pele,
sem que seja importante o gênero
ou a opção sexual,
a religião ou a ausência dela,
é preciso gerar empatia,
independente de simpatia
ou de amizade.
contra os muros que dividem,
a sociedade que exclui,
que aliena,
contra as barreiras que oprimem,
contra tudo o que nos apequena,
precisamos dar as mãos,
e ser como coluna que avança

I.R.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

primeiro capítulo

se me torno bissexto
é porque descubro outro contexto
onde a reinvenção,
um novo roteiro,
encontra no capítulo primeiro
a resolução para o tema dos conflitos...
não pretendo resolver os problemas,
revelar os mitos e os mistérios,
apenas seria sério
entender de onde eles vêm
ou para onde eles vão,
depois do ponto final.

I.R.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

nadando

nado no vazio das ideias,
na saudade dos momentos,
mergulhado nos sentimentos
que a escrita nem sempre traz...
um poema se desfaz,
se esconde em meus cabelos,
em novelos desenrolados,
em letras embaralhadas,
nado no nada,
como quem nada entre ideias e artigos,
em contos e letras de música,
ao ponto de escrever como quem não sou

I.R.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

no ônibus

escrevo sobre rodas
que minhas vontades todas
não poderei fazer.
o prazer não está no tudo,
pois a felicidade está no como...
continuo rodando,
a viagem é longa...
e se chegar é importante,
o caminho é ainda mais

I.R.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

escrita

não vivi tudo o que tenho pra viver,
nem fiz tudo o que gostaria
nem mudei de opinião todas as vezes
que me parece válido mudar.
ainda não escrevi tudo o que queria...
talvez deva abrir o leque,
me diversificar...
talvez eu deva contar
as histórias que não cabem em versos...
carta, verso, conto,
minha escrita não termina no ponto
e ainda há muito por descobrir

I.R.

domingo, 8 de janeiro de 2017

voces

tu voz en mí
y mi voz en vos,
porque no somos uno,
ya que somos dos...
pero tu voz en mí
y mi voz en vos
es música en unísono,
canción en tono mayor

I.R.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

lágrima

na lágrima que rola por teu rosto
eu me lavo,
me emociono...
na lágrima que rola por teu rosto
a tristeza não é desgosto,
é emoção à flor da pele,
que impele nosso abraço...
na lágrima que rola por teu rosto,
a lágrima que ficou escondida no meu

I.R.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

42

a pedra por onde a água desliza
é leve como a brisa,
só há dureza
na frialdade do coração humano.
quero ser como a água que escorre,
como a pedra acariciada
pela fonte da vida...
agradeço à vida
que tem me emprestado tanto

I.R.

domingo, 1 de janeiro de 2017

arranha-paz

os arranha-céus não podem nos intimidar
por mais que tentem,
por mais que arranhem...
o céu não é azul
e a vida não é cor de rosa...
mas o sonho é possível.
a paz é uma realidade difícil,
a paz interior é um caminho
que depende de cada um

I.R.