domingo, 23 de abril de 2017

antes de ser oceano

Foto: Adriano Mello

sou gota de chuva
escorrendo no para-brisa,
virando filete de gotas de chuva...
sou fio de água
que corre sem mágoa rumo ao bueiro...
sou partes por inteiro,
faço artes, pinto o sete,
sou água pluvial que cai num rio...
e sorrio ao pensar meu destino,
(menino que crê no acaso
e no ocaso de cada amanhecer)
sou afluente,
caudal que deságua n'outro rio,
que continua fio d'água
a caminho do mar

I.R.

terça-feira, 18 de abril de 2017

contra a indiferença

o rio de dor é vermelho sangue,
que jorra de corpos inocentes...
matando gentes
na síria, na palestina, na nigéria,
na miséria do dia a dia
na frança ou no afeganistão...
na falta de justiça e na ausência de pão.
um iraquiano não é menos pessoa
do que um inglês,
nem um cristão melhor que um muçulmano...
um judeu, um budista, um coreano,
do sul ou do norte,
ninguém está entregue à própria sorte,
somos marionetes
nas mãos nos interesses de poucos,
fantoches nos dedos dos fabricantes
e dos traficantes de armas...
desarmados, inclusive, de amor

I.R.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

termostato

o frio que você sente
não é o clima que sinto.
a água que quente te acaricia,
me abraça como água fria...
termostato diferente,
liberdade de ação,
indivíduos na sensação
com desejo de compartir,
a ânsia sem ansiedade,
ação de liberdade,
no exercício de sentir.

I.R.

sábado, 8 de abril de 2017

desconectados

facebook, instagram,
whatsapp, snapchat...
todos com suas fotos,
suas... nossas histórias...
em momento real...
onde somos personagens
de nosso próprio reality,
e espectadores,
sem muita expectativa,
do bbb dos outros.
fora da tela, as pessoas que apreciamos,
as que amamos
e as que não conhecemos,
essas que chamamos de amigos,
sofrem, se alegram, são...
elas vivem e morrem
e às vezes demoramos anos pra saber

I.R.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

do deserto

Arte: Fernanda Silveira de Souza

é preciso ou eu preciso passar o deserto,
quarenta dias, quarenta anos,
o incerto de todos os planos,
a sorte da vida antes da morte...
destino traçado com o próprio punho,
na ponta do lápis, na crina do pincel.
talvez um cacto marque o caminho,
quem sabe um pacto vem de mansinho,
solto ao sol, descoberto ao léu...

I.R.

sábado, 25 de março de 2017

intérprete

interpreto,
mais de longe do que de perto,
sem os recursos necessários pra interpretar.
interpreto sem texto,
sob o pretexto e a vaidade,
de que minha leitura é verdade,
não só mera interpretação.

I.R.

segunda-feira, 20 de março de 2017

atividade vulcânica

depois do magma, da lava,
das cinzas e dos gases,
do caos que arrasou pompeia
e das extinções ao norte de pangeia
depois de formar ilhas,
nascer a leste de tordesilhas,
solto fumaça
como quem fuma um charuto velho...
sou vulcão quase inativo,
previsível...
usando o verbo à toa,
já não sou krakatoa que transborda de eflúvio.
já não sou vesúvio...

talvez já não haja o que arrasar

I.R.

domingo, 12 de março de 2017

teórico-prático

todo bom conselho,
toda receita de vida,
manuais de felicidade
e guias de autosuperação,
são ainda mais fáceis de seguir
quando somos só espectadores...
meros participantes
dos problemas alheios.
mas na própria pele,
quando perdemos filtros e freios,
é que nossa razão também repele
o que supostamente sabemos...
saber não é conhecer
ou vice-versa...
caminho de teorias...
até a teoria se fazer carne
e habitar entre nós

I.R.

segunda-feira, 6 de março de 2017

para pitágoras

admiro os números e suas fórmulas,
invejo seus resultados exatos,
sua certeza dentro do abstrato,
mas trilho a imperfeição da palavra,
o caminho dos problemas da interpretação,
a traição no ato de traduzir

I.R.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Nas pegadas do pai

Caminhando pela areia da praia:

- Papai, quero caminhar pisando nas suas pegadas. Diz, pisando nas marcas que deixo na areia.
- Tudo bem, meu filho. Mas você também pode fazer suas próprias pegadas.
- É, pai. É melhor eu fazer minhas pegadas. Diz, agora caminhando a meu lado.
- Cada um faz seu próprio caminho e suas próprias pegadas, filho.
- É, pai. Eu vou criar minhas pegadas, mas agora prefiro andar nas suas. Diz, voltando a pisar nas marcas que deixo na areia.
- Por que prefere?
- Prefiro andar nas suas pegadas enquanto sou criança, para não me machucar. Você olha bem onde pisa e não vou cortar meu pé.

I.R. e S.R.P.