quarta-feira, 30 de maio de 2018

porque não estamos sós

redescubro a arte do malabarismo,
andando pela corda bamba,
por sobre o abismo,
imensidão azul
ou o céu nosso de cada dia...
ansiedade, adrenalina,
a realidade que se assoma
ou o sonho ao que se destina...
variar as variáveis,
sem tocar o invariável desejo
de chegar ao outro lado,
e de, lado a lado, saber como descer

I.R.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

outono

as palavras não ditas
são como folhas de outono
que caem
formando não frases,
como o leito de um rio seco.
é preciso trabalho e persistência
e nenhuma ciência,
além da melodia.
é necessário voltar à origem,
sentir a vertigem
da consciência se tornando imagem,
som e sabor de poesia

I.R.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

década + década

habita em mim uma ponte
extendida no horizonte do que vivo.
arco-íris,
que une de ponta a ponta
meu norte e meu sul,
com essa bússola descalibrada,
versão desalinhada
e moderna, com duas agulhas...
duas histórias, duas geografias,
duas culturas, dois idiomas...
e um sol... esse único sol
que nasce no rio da prata
e se põe nas águas frias
de uma praia grande
onde também não nasci

habita en mí un puente
extendido en el horizonte de lo que vivo.
arcoiris,
que une de punta a punta
mi norte y mi sur,
con esa brújula descalibrada,
versión desaliñada
y moderna, con dos agujas...
dos historias, dos geografías,
dos culturas, dos idiomas...
y un sol... ese único sol
que nace en el río de la plata
y se muere en las aguas frías
de una playa grande
donde tampoco nací

I.R.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

achegando

na distância,
o que distancia
não é o que se diz,
mas o que se ansia,
sem poder realizar.
relatos náufragos,
mensagem engarrafada,
trânsito que não transito,
não por ser herói
e menos por ser mito.
transmuto,
transmito.
não fico
e desmistifico à distância...
a ânsia do que se diz
é só o desejo de se achegar

I.R.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

silêncio

à noite, os acordes me acordam,
sem um acordo tácito...
tenho os dedos flácidos
e a mente em ebulição.
no apagar das luzes,
a granada que explode
não retumba,
tem um eco seco,
uma sonoridade muda,
que me muda, me transporta
e abre uma porta
para as janelas que fechei.
é no silêncio que se gera
e que se estabelecem os vínculos.
esse silêncio
que também é fazer poético,
poesia em estado bruto,
onde desvinculo os círculos,
poesia para lapidar
em silêncio.
à noite, o silêncio me acorda...

I.R.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Carta e Verso - 10 anos e um dia

10 anos e um dia se passaram desde que escrevi pela primeira vez aqui. Tive anos de escritura compulsiva, até abraçar o desejo de escrever pouco. Gosto da não pressão de escrever, embora saiba que ainda me pressiono. Não gostaria que este blog fosse lido como uma biografia ou como um caderno com meus pensamentos. Há muito de ficção na poesia e muito de personagem na voz do poeta. Nisso se encontra, para mim, a diversão de escrever, separar e encontrar o que vive de quem escreve. Carta e Verso, 10 anos. Que venham mais 10, se continuar me dando prazer.

I.R.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

erguendo espelhos

se ergo meu ego
é porque não me nego,
mas se só ergo meu ego,
me renego,
não me cuido
e num descuido
me afogo no lago de narciso

I.R.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

sobre a janela

Foto: Igor Ravasco

abro uma janela
como quem abre a mente,
onde o que sinto não está ausente,
é imagem e reflexo,
é nuvem e céu azul,
formando um nexo
entre o que se vê e o que se subentende
abro uma janela
e meu coração à mulher amada...
o ser e o não-ser, o tudo e o nada...
alguma filosofia...
na minha alegria,
além de menos alergia,
quero uma felicidade clara

I.R.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

dia das bruxas

a bruxa não tá solta
nem tem culpa.
a bruxa é o bode expiatório
do machismo e da intolerância...
deixemos a bruxa,
é hora de combater os carrascos

a palavra foi cerceada,
o canto foi calado
e o magistrado antidemocrático
impõe uma democracia à população...
sem o povo

enquanto isso, de novo,
soltos e culpados,
os "nobres" deputados
mantém o rei nu no poder.

I.R.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

iluminação

minimalista,
econômico...
mentira.
me expresso pouco,
falando demais.
porque falar o que penso
não é dizer o que sinto...
e sair do labirinto
é acender o farol.

I.R.