segunda-feira, 20 de março de 2017

atividade vulcânica

depois do magma, da lava,
das cinzas e dos gases,
do caos que arrasou pompeia
e das extinções ao norte de pangeia
depois de formar ilhas,
nascer a leste de tordesilhas,
solto fumaça
como quem fuma um charuto velho...
sou vulcão quase inativo,
previsível...
usando o verbo à toa,
já não sou krakatoa que transborda de eflúvio.
já não sou vesúvio...

talvez já não haja o que arrasar

I.R.

domingo, 12 de março de 2017

teórico-prático

todo bom conselho,
toda receita de vida,
manuais de felicidade
e guias de autosuperação,
são ainda mais fáceis de seguir
quando somos só espectadores...
meros participantes
dos problemas alheios.
mas na própria pele,
quando perdemos filtros e freios,
é que nossa razão também repele
o que supostamente sabemos...
saber não é conhecer
ou vice-versa...
caminho de teorias...
até a teoria se fazer carne
e habitar entre nós

I.R.

segunda-feira, 6 de março de 2017

para pitágoras

admiro os números e suas fórmulas,
invejo seus resultados exatos,
sua certeza dentro do abstrato,
mas trilho a imperfeição da palavra,
o caminho dos problemas da interpretação,
a traição no ato de traduzir

I.R.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Nas pegadas do pai

Caminhando pela areia da praia:

- Papai, quero caminhar pisando nas suas pegadas. Diz, pisando nas marcas que deixo na areia.
- Tudo bem, meu filho. Mas você também pode fazer suas próprias pegadas.
- É, pai. É melhor eu fazer minhas pegadas. Diz, agora caminhando a meu lado.
- Cada um faz seu próprio caminho e suas próprias pegadas, filho.
- É, pai. Eu vou criar minhas pegadas, mas agora prefiro andar nas suas. Diz, voltando a pisar nas marcas que deixo na areia.
- Por que prefere?
- Prefiro andar nas suas pegadas enquanto sou criança, para não me machucar. Você olha bem onde pisa e não vou cortar meu pé.

I.R. e S.R.P.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

qual caracol

Foto: Neder Marchito

carrego meus pensamentos,
meus sentimentos,
meu passado e meu presente,
trago no corpo e na mente
minha casa, meu esqueleto,
que crescem comigo,
que mudam junto comigo.
vida que é vivida,
que eu carrego no tempero,
sempre evitando o sal

I.R.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

baires 19

hay bares y baires,
bajo los aires
en que elegí vivir.
hay universidades y templos,
un compilado de momentos,
hay clases y traducciones,
subtitulado,
hay portugués
y español del río de la plata,
pero plata hay poca.
hay una city loca
en una relación de amor y amor.
hay amigos, amores,
gente con quien comparto
historias donde soy protagónico
o actor de reparto,
mi historia,
viva en mi memoria,
vivida a cada día

I.R.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

direcionado

Foto: Sasha Ivanovic

a direção não é obrigatória
não é compulsória...
o caminho de cada um
é cada um que faz,
a direção é cada qual que dá.
não sei quanto dura,
aonde vai,
ou se as futuras gerações
terão futuro...
num mundo cheio de muros,
as setas não deveriam obrigar.
siga? o que o coração mandar,
como eu sigo minhas metas... incertas,
quase sem direção...
pois não tenho estrada obrigatória,
compulsória...
só tenho um norte,
que talvez me leve ao sul

I.R.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

cercado

Foto: Silas Campos

as cercas que me cercam
se oxidam
e o oxigênio que invisto
para encontrar novas formas de prisão
me enferruja
não sou coruja sábia
nem raposa esperta
nem sempre estou alerta
às trapaças e aos autoenganos...
mas rasgo as roupas,
esfolo a pele,
arranho a alma na lama...
nem sempre tenho um alicate à mão

I.R.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

living mask

Foto: Krzysztof Szuskiewicz

por trás da máscara que tiro
há outra máscara que tiro
e outra que arranco
e outra e mais outra
como camadas de cebola,
como a própria pele...

anjo e demônio,
santo e pecador,
aluno, professor...
por trás das máscaras,
por trás das marcas...

disse um poeta
que somos a cara que temos...
mas se renovamos máscaras,
que cara temos?
que cara somos?

por trás da máscara que uso
há outras máscaras que uso

I.R.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

de mãos dadas

Foto: Marcus Vianna

sem importar a cor da pele,
sem que seja importante o gênero
ou a opção sexual,
a religião ou a ausência dela,
é preciso gerar empatia,
independente de simpatia
ou de amizade.
contra os muros que dividem,
a sociedade que exclui,
que aliena,
contra as barreiras que oprimem,
contra tudo o que nos apequena,
precisamos dar as mãos,
e ser como coluna que avança

I.R.