quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Procedimento número 3

Acordei com o eco da primeira bomba que caiu sobre Buenos Aires. Os aviões, em voos rasantes, vomitavam destruição.

Minha primeira reação foi tentar ver o que estava acontecendo, mas, entre o mosquiteiro e a grade, olhar pela janela era uma tarefa quase impossível.

Desci pelas escadas, em direção à rua. Não via, apenas ouvia os aviões. As ruas estavam quase desertas de carros. O metrô parado. Algumas pessoas corriam gritando que o fim do mundo havia chegado, outras diziam que era um golpe de estado, enquanto outros pensavam em novo conflito pelas Ilhas Malvinas.

Eu apenas caminhava. Rumo ao centro, procurava não pensar no que estava acontecendo, ou no que já havia acontecido. As bombas não caíam mais. Caminhando pela Avenida Corrientes, vi livrarias fechadas, lojas com vitrines quebradas, cafés abandonados, até chegar ao que era o Obelisco. Era. Partido na base, despedaçado na 9 de Julio, morto, jazia o Obelisco.

No McDonald’s da esquina, ainda aberto, havia uma televisão ligada. Entrei e atônito vi os jornais mostrarem o momento em que os invasores entravam pelo Rio da Prata, em que o exército inimigo ocupava a Casa Rosada. Não era o fim de nada, nem velhas guerras ou novos golpes. Acabara de acontecer uma invasão. Buenos Aires ocupada, anexada.

Nas províncias a resistência foi nula. A invasão não só tinha sido bem preparada, como contava com ajuda e traição interna. Em questão de horas a Argentina tinha um interventor, nomeado pelo Big Brother. A comunidade internacional apoiou a invasão. Chegara a hora de uma nova ordem mundial. O irmão do Norte aderira ao socialismo ecológico do século 21.

Voltei para casa. Pela internet tínhamos ideia da repercussão do acontecido. Nos sites de alguns jornais, muitos leitores se mostravam a favor da invasão. Seríamos de primeiro mundo, diziam alguns, voltaríamos à velha glória, diziam outros. Em contrapartida, havia gente disposta a resistir, a se organizar e a tentar expulsar esses neo-socialistas.

Não sabia o que fazer, e talvez minha decisão tenha sido errada. Não fiz nada. Preferi ficar em cima do muro. Pensei na minha vida, na minha família, no meu conforto. Os acontecimentos se sucediam na velocidade da própria internet. Não havia tempo para reflexões. Era ação ou nada. E foi em meio à dúvida que no dia seguinte à ocupação, ainda sem saber os motivos da mesma, bateram à minha porta.

Os invasores separaram os estrangeiros por nacionalidade e redesenharam a cidade. Todos os coreanos no mesmo lugar, e os paraguaios, os uruguaios, os brasileiros, os peruanos, os ciganos, os taiwaneses, os senegaleses, cada um no seu bairro, utilizando a bandeira do seu país ou de sua nação no braço. Os judeus e os argentinos de pele escura também foram separados do resto da população.

E foi já em meu gueto que vi o primeiro comunicado do interventor. Toda água do país passava a ser comum, não pertencia mais à Argentina. Pertencia ao socialismo ecológico do século 21. O irmão do Norte a partir daquele aviso a controlava e vigiava o uso que fazíamos dela. Os banhos passaram a ser a cada 3 dias e os dentes só podiam ser escovados uma vez a cada dois dias.

Resumindo, foi isso.

Eu juro que tudo aconteceu exatamente dessa maneira, e minha história justifica minha falta de banho. Você chegou de férias hoje e não tem ideia da loucura que foram os últimos 4 dias. O que posso fazer se a imprensa internacional não publicou nada?

I.R.