sexta-feira, 10 de julho de 2009

Querida, não é o que você está pensando

Sempre me impressionei com a veracidade que damos àquilo que vemos.

'É ver para crer'. 'Se eu não vir e não tocar'... 'Vi com estes olhos que a terra há de comer'. Ou até mesmo 'o que os olhos não veem, o coração não sente'. Somos escravos dos nossos olhos, e mais escravos ainda do que juramos ser verdade porque vimos.

Me impressionou o fuzuê que a imprensa fez sobre a suposta olhadela de Barack Obama e Nicolas Sarkozy na bunda da jovem brasileira Mayara Tavares. O trabalho social que ela faz, até pode ficar em segundo plano, o que importa é que ela teria se tornado o "ass" ou o "derrier" cobiçado por ambos presidentes.



Imagino Obama chegando ao hotel, se encontrando com Michelle e ela com uma página de jornal ou um site aberto, mostrando a foto e ameaçando fazer um escândalo, exigindo explicações. O mesmo acontecendo com Carla Bruni, perguntando a Sarkozy o que significa aquele dedo na boca e aquela cara de lobo para a bunda da jovem em questão.

Imagino o mundo chamando os dois de velhos babões, pedófilos, depravados, etc. por causa de uma foto, que, é claro, é a verdade absoluta, revelada por Deus.

Mas nossos olhos nos enganam. Vemos o que queremos ver. E o que nós afirmamos ser a Verdade, muitas vezes está longe de ser sequer uma possibilidade.



Quando a imagem ganha mnovimento, Obama não vai precisar dar nenhuma desculpa em casa. Já Sarkozy vai ter que se explicar muito bem.

I.R.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Negro de alma

Tenho um filho meio ruivo, meio louro, de olhos azuis. Eu também tenho a pele clara, apesar dos antepassados indíos e negros da minha árvore genealógica. Em momento algum renego a minha cor. Nesse mundo onde vivemos, nessa sociedade racista, preconceituosa, não é fácil nascer negro. Mas na minha próxima encarnação quero nascer negro. Quero ser preto. 100% Preto! Preto é lindo! E se for concebido por um casal branco, espero poder tomar um banho de pixe antes de nascer.



I.R.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

verde

um olho verde me intimida
enquanto não usei colírio.
meus olhos ardem
e o verde do gramado está queimado.
verde era o poema de gosto duvidoso
de um poeta duvidoso
numa praia do atlântico.
verdes eram as suas ideias
e as minhas...
adoro verde,
sorvete de pistache.

I.R.





I.R.

terça-feira, 7 de julho de 2009

pódio



se a palavra é de prata
e o silêncio é de ouro,
dizer abobrinha é de bronze?

I.R.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

pé ante pé



no pé de página,
meu pé de atleta,
no pé de alface,
ao pé da letra,
meu pé de laranja lima,
um pé-de-moleque,
no pé direito,
um pé de cabra,
meu não pé de valsa,
meu pé frio
sem um pé de meia
e meu pé chato,
meu pé de pato
pede passagem
e pede perdão
pelo meu chulé.

I.R.

domingo, 5 de julho de 2009

mezcla

café com leite,
queijo com goiabada,
feijão com arroz,
negro de olhos verdes,
japonês mulato,
cozido,
moqueca,
agridoce,
mistura
e o som mestiço
em alguma montanha
do altiplano



I.R.

sábado, 4 de julho de 2009

Cidade sitiada

Esta cidade foi contaminada
Pelo vírus da angústia ou o do medo,
Nas ruas nos apontam com um dedo
(Toque de recolher..., curral..., manada)

Buenos Aires caminha a sentir nada,
A ser um nada mais do que degredo,
E nós nas suas mãos sermos brinquedo
De vida não vivida, mas frustrada.

Teimo em não me entregar, e é só de birra
Nas mãos desta cidade que não espirra
Cravo firme os meus dedos numa boia

E evito a boca enorme desta esfinge
A máscara não ponho que me impinge
E fujo desta louca paranoia.

I.R.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

garoando

a garoa cai fininha,
tão fininha
que quase não a vemos,
se não fosse pelo poste da rua,
de luz fluorescente...
não chove,
garoa,
água miúda,
espirro do céu
borrifando a noite
a espalhar os seus demônios.





I.R.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Bate-papo com Jesus sobre futebol



Há certas coisas que não entendo. E se entendo, não concordo.

Uma delas é que jogadores de futebol agradeçam a Deus por seus gols ou pelos campeonatos vencidos. Será possível que os jogadores que fazem isso não percebem que são indelicados com o adversário? Quer dizer que Deus é fiel com o artilheiro e castiga o goleiro, mesmo sendo ambos seus seguidores? Por que essa discriminação? Será que todos os goleiros rezam menos? Ou será que Deus não gosta de zero a zero e por isso ajuda os jogadores a fazer os gols?

Imagino Deus sentado em um banquinho de botequim, tomando uma cerva com São Pedro e decidindo que quem vai fazer o gol vai ser o jogador que tiver uma honagem para ele escondida embaixo da camisa do time. E se for uma final de campeonato, imagino-O examinando a ficha de cada um dos jogadores e fazendo a balança pender para o time que tiver mais devotos. A não ser que as orações dos torcedores do outro time tenham sido maiores e acompanhadas de mais velas ou mais promessas, aí Ele não tem como negar o pedido de tanto fiel. A decisão acaba ficando difícil.

Só um Deus muito covarde faria o Vasco cair para segunda divisão. Ou a fé dos vascaínos e a dos jogadores não foi/é muito grande. Ou vascaíno nasceu para viver um eterno purgatório. Bem, ser Vasco é padecer no paraíso. E o que dizer da final da Copa do Brasil, Corinthians e Internacional. Vão me dizer agora que Deus é cotinthiano, ou que não se importa com o sofrimento dos colorados? Perder um campeonato é estar fora da Graça?

Dedinhos para o alto apontando o céu. O que Deus tem a ver com isso?, volto a perguntar. Camisetas dignas de um cartão amarelo "Deus é fiel", "Eu amo Jesus". E o goleiro, que camisa deve ter? "Deus é um sacana"? Ou ainda: "Confio apenas em mim, porque em Deus tá difícil"?

Foi esse espetáculo de falta de respeito o que eu vi depois da final da Copa das Confederações. Lúcio, o capitão, com uma camisa escrita "I love Jesus" e Kaká com outra que dizia "I belog to Jesus". Bem, mensagens deste naipe em uma partida com os Estados Unidos é, no mínimo, uma indelicadeza. Ok, Deus é brasileiro, mas fala inglês, só para sacanear os americanos. Por mais que a mão de Deus seja argentina, o resto do corpo é brasileiro, mas sim, repito, fala inglês, só para lembrar bem aos americanos que eles não são dignos de ganhar do Brasil no futebol.

Ah, o esforço em campo e ser um bom jogador não conta muito. O que vale é que Deus aumenta as traves do adversário, coloca ventos desviando a trajetória da bola e se necessário entra em campo para emprestar a outra mão, para que a seleção canarinho e seus fiéis seguidores possam ser campeões.

Sinceramente, foi de muito mau gosto e uma falta de educação em todos os idiomas e credos. No futebol, prefiro a máxima baiana que diz que se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminaria empatado.

Um abraço,

I.R.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Vigésimo-segundo bilhete para um world músico

Buenos Aires, 01 de julho de 2009

Prezado,

o tambor, seja ele qual for, nos remete ao primitivo, ao tribal. Somos percussão desde que o nosso coração começa a bater. Hoje sonhei com a palavra Burkina, o país, o que me leva a querer dividir com você a arte de Adama Dramé.



Um abraço,

I.R.