domingo, 14 de julho de 2024

executante

gosto de ler poemas em voz alta,
poemas dos outros,
gosto de sentir o impacto
que causam, que me causam,
e me vejo intérprete,
como bethania, como ney,
e sinto que o poema só existe,
só, de fato, é,
quando lido em voz alta,
quando não lido com a vida do poeta,
mas permito que seu texto
entre em mim pela palavra que sai.
mesmo que eu não o entenda,
mesmo que eu gagueje, 
que eu perca o fôlego, 
ou só balbucie... 
poemas são como pássaros, 
não nascem para estar em gaiolas 

I.R.

quinta-feira, 11 de julho de 2024

(des)vario

quando seremos quem somos,
quando seremos sem máscaras?
mas como dizer quem somos,
se também somos nossas máscaras?
somos casca e conteúdo
o que aparentamos ser,
o que somos sem saber.
somos começo e fim, enfim...
mas por que escrevo no plural,
se no fundo falo de mim?
talvez porque seja plural,
porque sou e somos plurais,
como alguém dissociado, como deus...

ou fernando pessoa.

I.R.

domingo, 7 de julho de 2024

leitura em como dá

e se eu escrevesse sem pontos
nem vírgulas e quebrasse
o verso em qualquer lugar
como se leria o poema com que
intenção
se entenderia o que se passa
na minha cabeça enquanto escrevo
a dificuldade de entender o que penso
além de toda
dificuldade
de apenas ler e sentir que
o texto significa alguma coisa
em uma existência que busca
sempre existe algum sentimento
o único vazio é a falta de sentido

I.R.

terça-feira, 2 de julho de 2024

reflexões de bolso

a alegria não é mais
nem menos efêmera
que a tristeza...
vou pensando, enquanto ando
e as chaves batem no bolso,
como um guizo de cascavel.
tenho sangue venoso e arterial,
não sou venenoso,
pelo menos de forma literal.
continuo a caminhada,
um pé depois do outro, ao pé da letra,
e penso na palavra-chave...

que a porta que ela abre,
ela também pode fechar.

I.R.

quarta-feira, 26 de junho de 2024

o silêncio

o silêncio faz silêncio,
o silêncio murmura,
o silêncio é ruído
na minha boca,
no meu ouvido
o silêncio grita. 
o silêncio me tranquiliza,
me sacode, me agita,
me estabiliza, me enlouquece,
o silêncio é uma prece
para um deus desconhecido.
rezo o silêncio,
enquanto desprezo o silêncio,
e prezo o preço do silêncio
que desconheço.
não silencio, apenas me extravio,
minha calma tem som de fanfarra

I.R.

sábado, 22 de junho de 2024

algo de mim

converso comigo
e chamo minha atenção, 
às vezes em voz alta,
rio só, muitas vezes, 
tomo vinho
(nem sempre sozinho), 
e escrevo, enquanto
como e invento fábulas sem moral. 
serei esquecido, 
talvez em menos de 100 anos. 
alguém briga com a chave, 
com a porta, 
chile e peru empatam...
não sou o poema, 
não estou no texto, 
mas também invento pretextos 
pra falar algo de mim.

I.R.

terça-feira, 18 de junho de 2024

avenida corrientes

caminho pela avenida
como se passeasse em meu museu,
visito salas, observo sedimentos,
as camadas que se acumulam,
mas não habito esse lugar, esse momento,
vivo outro instante...
meu passado só tem a função
de ser um livro de consulta,
um dicionário, um livro de história,
uma fonte de pesquisa
que, ao estar na memória,
não será precisa,
mas que eu preciso, impreciso,
pra entender todo dia como chego aqui.

I.R.

sábado, 15 de junho de 2024

recepção

sou recebido com chuva
e umidade,
esta que sinto na pele,
aquela da qual me escondo
nas marquises, nos pontos de ônibus. 
sou recebido por lembranças
de violão e vinho
de um motorista nostálgico, 
recebido pela beleza de sua arquitetura,
e pela feiúra de suas filas,
pela alegria imprevista,
pela paz e pela fúria,
sou recebido pelas cores do boêmio,
e sei que também estou em casa

I.R.

domingo, 9 de junho de 2024

volteiro

meu ritmo sinusal
é sinuoso,
meu coração não bate em linha reta,
perambula em curvas,
em vistas turvas,
e emoções embaçadas. 
embarco em travessias,
atravesso contradições, 
vivo uma vida de edição única,
de maneira ondulada,
entalhada em madeira de lei,
no som das asas de um beija-flor

I.R.

terça-feira, 4 de junho de 2024

desgelado

sonho com o sabor
do sorvete caído no calçadão,
derretido, de gosto desconhecido,
que eu desvio para não pisar.
a casquinha intacta,
talvez contendo pena e tristeza,
não atrai os cachorros
e é grande para as formigas.
me lembro de esquecer histórias antigas,
enquanto os postes, mais do que a lua,
iluminam por onde passo,
à medida que o sorvete derretido seca
e me afeta, sem medida,
me atinge com metáforas
que não quero escrever.

I.R.