terça-feira, 16 de abril de 2013

fonte

Foto: Lena Maia

somos feitos de água,
em um planeta de água,
cercado de terra por todos os lados.

mais do que um balé,
precisamos de malabarismos
para driblar as correntezas.

entre colunas líquidas,
desafiamos em clave de break dance,
com a mão na massa molhada,
às águas em calmaria,
paradas, estacionadas,
causadoras de doenças.

lutamos a favor dos ventos
para que espalhem gotas de nós
e gritem por aí o que ouvimos
em forma de sussurro.

I.R.

domingo, 14 de abril de 2013

mito à contra luz

Foto: Simão Salomão

somos somente sombras do que somos
e andamos por aí fazendo mímica.

somos as sombras
que víamos nos espelhos da caverna.
somos um mito.

fogo fátuo,
sol de brinquedo,
somos um arremedo

esperamos o entardecer
para acendermos as luzes
e sermos sombras iluminadas.
esperamos o sol se pôr
para supor que iremos nos ver.

I.R.

sábado, 13 de abril de 2013

trinta e dois ou dois e oito

o querer estarmos juntos
não é uma verdade revelada,
mas é um estado que releva
buscando valorizar o relevante.

sem revelações,
o caminho são as ações,
as pequenas mudanças,
os pequenos gestos que se tornam grandes.

o querer estarmos juntos
é um contrato de amor entre as partes,
sem renovação instantânea.

não queremos um amor de piloto automático.
é bom quando cada um pega no volante.

I.R.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

legado

Foto: Ricardo Aprigio Fonseca

o que sou, o que fui,
o que serei.
e o que não serei, não sou
ou não fui,
mais o que poderia ter sido,
e o que talvez tivesse sido,
ou o que talvez seja,
o quem dera fosse
o quando for
e o secreto talvez já tenha sido,
são apenas uma parte
do intrincado de raias
por onde nadamos todos os dias
numa experiência de distância indefinida,
cujo final será sem troféu, sem medalha.
nada. nada além da certeza de se ter vivido.

I.R.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

a menor distância

Foto: Cesare Salvadeo

a menor distância entre dois pontos
não é uma linha reta.
e o mesmo banco que nos une,
também nos separa.
a menor distância entre os seres humanos
não é um banco em linha reta,
nem as águas doces de um rio,
nem o salgado das lágrimas ou do mar.
nossos barcos não deveriam ter âncoras.
nossos olhos deveriam saber interpretar o infinito.

I.R.

terça-feira, 9 de abril de 2013

vade-mécum

Foto: Marcelo Isidoro Alves

ré...
vê...
ou revê o horror
sem acentos ou com espaços
a imaginação abre seus braços
e a mente não desmente o que lê.

por onde for quero ser seu par,
mas se fico de costas
pra você ou para o mundo,
não construo uma solução.

domingo de 7 às 16
em 1897,
ou 1953...

por onde for quero ser seu par,
e de par em par rever o horror
para acentuar a vida
e diminuir os espaços,
de frente para o mundo.

vida plena,
não um prêmio de consolação.

I.R.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

fim do túnel

Foto: Esther Toledo

para quem tem fé no que faz,
não há uma luz no fim no túnel.
a experiência da travessia,
a aprendizagem do caminho,
fazem do túnel o espaço a ser
transitado, habitado, percorrido.

para quem acredita no que faz
o fim do túnel não é de luzes,
pois o túnel já é iluminado,
e brilha e irradia,
é todo caminho de luz,
um túnel inteiro que não tem fim.

I.R.

sábado, 6 de abril de 2013

stand up

Foto: Márcio Pimenta

o amor romântico não existe
fora das páginas dos livros.
o que não significa
que não exista amar.
na dinâmica de conversar,
de exigir e de ceder,
de ganhar e de perder
ou de perder para ganhar
as relações crescem...
depois das tempestades
os barcos viram pranchas
navegando num espelho d'água,
com uma equação de equilíbrio.

I.R.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

como livre é sonhar

Foto: Simão Salomão

o combustível mais barato
para viver outras vidas
e habitar outros mundos é o sonho.
talvez sonhemos demais
e já seja hora de acordar.

tatuamos profetas ou deuses,
uma massa de cabelos e rugas,
e carregamos esse peso
como uma asa quebrada
que nos faz voar em círculos.

dormimos como anjos caídos
atropelados pela ganância do lucro,
e não apoiamos a cabeça
em um travesseiro de penas...
nossa consciência é pesada
pelo pesadelo de nossos iguais.

I.R.

terça-feira, 2 de abril de 2013

na liberdade

Foto: Simão Salomão

vivemos atrás das barras da escravidão
barras que pintamos com sangue,
que lavamos com suor,
e ainda não sabemos que não nos libertaremos
em alta velocidade.

a libertação é um processo lento,
é a coragem de subir nas barras,
e dar um salto à estrada de nosso caminho.

há muitos caminhos,
sempre há muitas rotas.
podemos seguir a de todos
num esforço morno de liberdade...
podemos viver nossa rua,
e descobrir na seta reta
todas as sinuosidades e curvas
que nos tornam livres.

também vivo atrás das barras vermelhas da escravidão,
mas reteso o arco para atirar minha flecha.
.
I.R.