há tanto por dizer,
por escrever, por fazer,
por comer,
por amar, por olhar,
por viver,
por fugir, por me iludir,
por me enganar,
por brincar,
que uma encarnação é pouco.
feliz e livre não é o homem
que satisfez os seus desejos,
mas o que não tem desejos.
e quem disse que sou feliz?
e quem disse que sou livre?
e quem disse que quero ou pretendo ser
algo mais do que penso que sou...
um insatisfeito, um adorável insatisfeito,
um homem incompleto,
cercado de seres incompletos
um pecador que não crê muito no pecado,
mas na falta de respeito,
na falta de amor,
um homem com o coração cheio de amor
mas que não quer ser livre,
apenas feliz.
os desejos são muitos
e a vida é curta.
uma vida é pouco para desejar demais.
tenho certeza de que
voltaremos a nos encontrar.
I.R.
domingo, 12 de abril de 2009
sábado, 11 de abril de 2009
varanus komodoensis
quando dormi
e vi que tinha me transformado
em um dragão,
não me assustei.
passei a língua gosmenta
pela cara,
limpei meus olhos,
caminhei como um lagarto...
livre.
quando acordei
ainda como dragão
não senti nada
além de um leve desconforto,
pois o dragão de komodo
não se sente cômodo
com o odor da sua baba.
então quase sem respirar
fui em busca de algum humano,
de preferência fresco,
para morder e envenenar com minha saliva.
I.R.
e vi que tinha me transformado
em um dragão,
não me assustei.
passei a língua gosmenta
pela cara,
limpei meus olhos,
caminhei como um lagarto...
livre.
quando acordei
ainda como dragão
não senti nada
além de um leve desconforto,
pois o dragão de komodo
não se sente cômodo
com o odor da sua baba.
então quase sem respirar
fui em busca de algum humano,
de preferência fresco,
para morder e envenenar com minha saliva.
I.R.
sexta-feira, 10 de abril de 2009
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Carta para um pedreiro
Buenos Aires, 09 de abril de 2009.
Prezado pedreiro,
Se alguém entrar em contato com você para certo tipo de trabalho, por mais que a crise seja grande e o trabalho realmente esteja em falta, diga não. Aceite construir edifícios, escolas, casas, cinemas, teatros, e um longo etc. Mas não aceite construir muros.
Não sei quando foi construído o primeiro muro com o fim de segregação. Fique claro, não falo de muralhas como as da China ou a de Jericó que tinham como função defender uma população de invasões estrangeiras, mas falo dos muros que procuram “defender” os ricos dos pobres, do que procuram mostrar aos inferiores militarmente que eles não têm direito a um Estado próprio, daqueles que indicam a sua condição social, dos que são construídos com base na mentira em que é necessário defender a ecologia. Falo dos muros da vergonha, dos que separam ideologias e isolam famílias, amigos, dos que mostram que os fortes realmente pouco se importam com os fracos.
Aqui na Argentina, na grande Buenos Aires, o prefeito de San Isidro, município famoso pelos seus mauricinho e suas patricinhas (isso não significa que todos seja assim), quer construir um muro para separar o seu município do vizinho, San Fernando. O limite entre os dois município é marcado pelo contraste econômico e social. É mais fácil construir um muro do que pôr em prática um projeto de políticas públicas que aumente o emprego, que invista em educação.
No Rio de Janeiro, o governo quer cercar as favelas, em nome da proteção à mata, para que as favelas não continuem crescendo sobre a vegetação que ainda resiste. Um muro “ecológico”. Mentira. É mais fácil construir um muro e segregar os “favelados” do que executar um projeto real de urbanização das favelas, de postos de trabalho para os seus moradores.
Nos EUA, o muro foi construído na fronteira com o México, para impedir que os mexicanos (e outros pobres) “invadam” o território americano, norte-americano, estadunidense, chame como quiser. Preciso fazer algum comentário?
Em Israel, o muro é para separar os palestinos “terroristas” do verdadeiro povo de Javé. A quem importa se famílias são separadas ou se pessoas têm dificuldades para chegar a seus trabalhos ou se são tratadas como seres humanos de segunda, não é mesmo?
Bem, amigo pedreiro, é isso. Boas construções, mas nada de muro. Eles discriminam, separam e “legitimam” a desconfiança, o medo e nunca são solução, apenas mais um tempero ao problema.
Aos muros, as marretas!
Um abraço,
I.R.
Prezado pedreiro,
Se alguém entrar em contato com você para certo tipo de trabalho, por mais que a crise seja grande e o trabalho realmente esteja em falta, diga não. Aceite construir edifícios, escolas, casas, cinemas, teatros, e um longo etc. Mas não aceite construir muros.
Não sei quando foi construído o primeiro muro com o fim de segregação. Fique claro, não falo de muralhas como as da China ou a de Jericó que tinham como função defender uma população de invasões estrangeiras, mas falo dos muros que procuram “defender” os ricos dos pobres, do que procuram mostrar aos inferiores militarmente que eles não têm direito a um Estado próprio, daqueles que indicam a sua condição social, dos que são construídos com base na mentira em que é necessário defender a ecologia. Falo dos muros da vergonha, dos que separam ideologias e isolam famílias, amigos, dos que mostram que os fortes realmente pouco se importam com os fracos.
Aqui na Argentina, na grande Buenos Aires, o prefeito de San Isidro, município famoso pelos seus mauricinho e suas patricinhas (isso não significa que todos seja assim), quer construir um muro para separar o seu município do vizinho, San Fernando. O limite entre os dois município é marcado pelo contraste econômico e social. É mais fácil construir um muro do que pôr em prática um projeto de políticas públicas que aumente o emprego, que invista em educação.
No Rio de Janeiro, o governo quer cercar as favelas, em nome da proteção à mata, para que as favelas não continuem crescendo sobre a vegetação que ainda resiste. Um muro “ecológico”. Mentira. É mais fácil construir um muro e segregar os “favelados” do que executar um projeto real de urbanização das favelas, de postos de trabalho para os seus moradores.
Nos EUA, o muro foi construído na fronteira com o México, para impedir que os mexicanos (e outros pobres) “invadam” o território americano, norte-americano, estadunidense, chame como quiser. Preciso fazer algum comentário?
Em Israel, o muro é para separar os palestinos “terroristas” do verdadeiro povo de Javé. A quem importa se famílias são separadas ou se pessoas têm dificuldades para chegar a seus trabalhos ou se são tratadas como seres humanos de segunda, não é mesmo?
Bem, amigo pedreiro, é isso. Boas construções, mas nada de muro. Eles discriminam, separam e “legitimam” a desconfiança, o medo e nunca são solução, apenas mais um tempero ao problema.
Aos muros, as marretas!
Um abraço,
I.R.
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Décimo-oitavo bilhete para um world músico - Bhangra na veia!
Buenos Aires, 08 de abril de 2009
Prezado,
não sei se você tem acompanhado a novela das 8 que começa às 9, mas que na Globo Internacional começa mesmo às 10, quando não às 11 por causa dos horários impostos pelo canal, mas parece que o bhangra está colocando pelo menos o nariz para fora. E o pessoal, como adora pagar um mico, arrisca cantar a música de abertura da novela nos karaokês, numa espécie de "embromation" com línguas ou dialetos do Punjabi.
Confesso que escutei o bhangra há alguns anos, quando estava no auge da procura por novos sons, por músicas diferentes. Não sou um especialista, você já sabe, mas me deparei com um ritmo variado. Algo como: o bhangra está para o Punjabi, como o samba está para o Rio. É a música que o identifica e você o encontra em diferentes versões, desde a menos misturada com elementos de fora, até a total fusão.
Uma espécie de drinque feito com hip-hop, house, pop, reggae, percussão, cantado num idioma impossível de se pescar uma palavra. E como tem muitos indianos e descendentes de, na Inglaterra, o bhangra moderno não é exclusividade do Punjabi.
Esse bilhete está ficando grande, não? Mas não importa. Como sempre, é difícil escolher o que colocar como representante do ritmo, mas acho que você já aprendeu que o critério é completamente pessoal.
É comum termos um autonomeado rei de algo. O bhangra também tem a sua majestade.
Diretamente da Inglaterra:
Um abraço,
I.R.
Prezado,
não sei se você tem acompanhado a novela das 8 que começa às 9, mas que na Globo Internacional começa mesmo às 10, quando não às 11 por causa dos horários impostos pelo canal, mas parece que o bhangra está colocando pelo menos o nariz para fora. E o pessoal, como adora pagar um mico, arrisca cantar a música de abertura da novela nos karaokês, numa espécie de "embromation" com línguas ou dialetos do Punjabi.
Confesso que escutei o bhangra há alguns anos, quando estava no auge da procura por novos sons, por músicas diferentes. Não sou um especialista, você já sabe, mas me deparei com um ritmo variado. Algo como: o bhangra está para o Punjabi, como o samba está para o Rio. É a música que o identifica e você o encontra em diferentes versões, desde a menos misturada com elementos de fora, até a total fusão.
Uma espécie de drinque feito com hip-hop, house, pop, reggae, percussão, cantado num idioma impossível de se pescar uma palavra. E como tem muitos indianos e descendentes de, na Inglaterra, o bhangra moderno não é exclusividade do Punjabi.
Esse bilhete está ficando grande, não? Mas não importa. Como sempre, é difícil escolher o que colocar como representante do ritmo, mas acho que você já aprendeu que o critério é completamente pessoal.
É comum termos um autonomeado rei de algo. O bhangra também tem a sua majestade.
Diretamente da Inglaterra:
Um abraço,
I.R.
terça-feira, 7 de abril de 2009
périplo
o gato preto serve como guia
na proposta de não perpetuação.
a pele preta,
o pelo preto
pela pele preta,
a ânsia de apertar
o pomo, premeditando o inevitável
o gato preto por perto,
a pele preta pelo caminho
como guia para o prazer
o ponto de interrogação,
as aspas, os arpões
prontos para pegar o gato,
um gato preto,
um gato por perto
e a probabilidade de apontar o improvável.
I.R.
na proposta de não perpetuação.
a pele preta,
o pelo preto
pela pele preta,
a ânsia de apertar
o pomo, premeditando o inevitável
o gato preto por perto,
a pele preta pelo caminho
como guia para o prazer
o ponto de interrogação,
as aspas, os arpões
prontos para pegar o gato,
um gato preto,
um gato por perto
e a probabilidade de apontar o improvável.
I.R.
domingo, 5 de abril de 2009
tempestade no deserto
no meio dos meus olhos há um saara,
um atacama que me ataca a vista
e me faz ver que
não há oásis, não há palmeiras,
não há camelos nem beduínos.
não há miragem.
há um gobi no meio dos meus olhos,
um sahel,
que enche minhas pálpebras de areia.
I.R.
um atacama que me ataca a vista
e me faz ver que
não há oásis, não há palmeiras,
não há camelos nem beduínos.
não há miragem.
há um gobi no meio dos meus olhos,
um sahel,
que enche minhas pálpebras de areia.
I.R.
sexta-feira, 3 de abril de 2009
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Pelé ou Maradona?
Sou brasileiro.
Moro na Argentina.
E não entro na discussão de quem foi melhor, Pelé ou Maradona?
O melhor, sem sombra de dúvida, foi ele, Mauro Shampoo - Jogador, Cabeleireiro e Homem.
Curta-metragem: Parte 1, Parte 2, Parte 3
Agora, voltando a Pelé e Maradona, além de terem sido excelentes jogadores, e de serem ambos, como diria Romário, filósofos com a boca fechada, o mundo artístico poderia colocá-los enfrentados mais uma vez. Afinal, quem canta pior, quem desafina mais, quem é mais cara-de-pau ou tem menos medo ou senso do ridículo?
E que vença o pior!
I.R.
Moro na Argentina.
E não entro na discussão de quem foi melhor, Pelé ou Maradona?
O melhor, sem sombra de dúvida, foi ele, Mauro Shampoo - Jogador, Cabeleireiro e Homem.
Curta-metragem: Parte 1, Parte 2, Parte 3
Agora, voltando a Pelé e Maradona, além de terem sido excelentes jogadores, e de serem ambos, como diria Romário, filósofos com a boca fechada, o mundo artístico poderia colocá-los enfrentados mais uma vez. Afinal, quem canta pior, quem desafina mais, quem é mais cara-de-pau ou tem menos medo ou senso do ridículo?
E que vença o pior!
I.R.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
aurora austral
ele, ontem,
mudou de astral.
alguém que nunca foi ostra,
mas que também não era astro
foi embora montado na cauda de um cometa
deixado em sua porta pelos que agora o santificam.
homem. e como tal, virtuoso e defeituoso,
seu julgamento entra para a história,
assim como seu pacto;
o fortalecimento das instituições
tanto quanto o dragão da que é hoje maquiada; a inominável
homem de cara limpa,
jamais precisou pintá-la
para atingir seus propósitos,
mas pela cara suja de alguns,
e para manter viva a que renascia,
foi obrigado a ceder. estrela cadente.
obediência devida. ponto final.
meses antes, o cetro muda de mãos.
ela, a renascida, sobrevive,
e dá à luz a um câncer que pilhará o que puder. ele, o inominável.
agora já não se pode voltar atrás.
podemos ver nos livros, na tv,
os reflexos na própria carne,
e que o passado nos ajude a que o futuro não seja igual.
vá em paz. a casa não está em ordem.
mas fique tranquilo. talvez não seja seu destino estar arrumada.
I.R.
mudou de astral.
alguém que nunca foi ostra,
mas que também não era astro
foi embora montado na cauda de um cometa
deixado em sua porta pelos que agora o santificam.
homem. e como tal, virtuoso e defeituoso,
seu julgamento entra para a história,
assim como seu pacto;
o fortalecimento das instituições
tanto quanto o dragão da que é hoje maquiada; a inominável
homem de cara limpa,
jamais precisou pintá-la
para atingir seus propósitos,
mas pela cara suja de alguns,
e para manter viva a que renascia,
foi obrigado a ceder. estrela cadente.
obediência devida. ponto final.
meses antes, o cetro muda de mãos.
ela, a renascida, sobrevive,
e dá à luz a um câncer que pilhará o que puder. ele, o inominável.
agora já não se pode voltar atrás.
podemos ver nos livros, na tv,
os reflexos na própria carne,
e que o passado nos ajude a que o futuro não seja igual.
vá em paz. a casa não está em ordem.
mas fique tranquilo. talvez não seja seu destino estar arrumada.
I.R.
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