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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Carta para um "culpador"

Buenos Aires, 08 de agosto de 2011.

Prezado,

Como é fácil querer responsabilizar os outros das nossas decisões, não é mesmo? E como, constantemente e até sem perceber terminamos fazendo isso.

Vou te contar uma história que aconteceu comigo. Um dia na semana passada, meu filho, de manhã, estava meio irritado. Reclamava de tudo. Tudo para ele estava mal, era feio, e não queria fazer xixi, nem escovar os dentes, nem tomar café da manhã, nem nada.

Eu tentava explicar para ele que cada uma dessas coisas era necessária, e que ele aproveitasse o dia, que começasse “pra cima”, com alto-astral. Aqui, talvez eu devesse ter parado de falar e respeitado o seu momento irritadiço sem dizer nada.
Mas, sinceramente, não sei. Acho que a felicidade se aprende e o olhar otimista pode ser desenvolvido. Não sei se tudo isso é inato.

Bem, mas acabei me irritando. E terminei gritando com o pequeno. Dei-lhe um grito, ele tremeu todo, chorou um pouco e aí, finalmente parece que acordou e passou a curtir feliz o dia.

Confesso que gostei do resultado do grito, mas não gostei de ter gritado. Eu poderia ter reagido de outra forma, não ter gritado e passado pela sua irritação sem me deixar atingir. Nesse momento, pensei o que em geral os pais fazem.

Os pais costumam dizer aos filhos: “Tá vendo, gritei com você, mas não queria gritar. A culpa é sua por me fazer perder a paciência. Por que você me fez gritar? Parece que gosta.”

Mas para tudo! Sou um ser pensante, poderia ter escolhido outro caminho, ter feito outra coisa. Gritei porque decidi gritar. Ninguém me obrigou a tomar essa atitude. Então aí, consciente disso, escolhi o meu caminho. Não coloquei nos ombros do meu filho a responsabilidade pelas minhas decisões. É fácil dizer que a “culpa” e dos outros, não é mesmo?

Sou responsável pelos meus atos. Então, dei um abraço no meu filho, começamos a conversar sobre outras coisas e superei a decisão de ter gritado com ele. Outro dia já tinha aprendido que também não é bom assumir culpas ou responsabilidades de forma super dimensionada, carregando os nossos ombros com o que não nos pertence. Faz mal ao próprio espírito.

É isso, meu amigo.

Um abraço,

I.R.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Carta para um mal-humorado

Buenos Aires, 02 de maio de 2011

Prezado,

Não vou dizer a você que sou a pessoa mais divertida, de mais bom-humor e feliz que você já conheceu. Mas também não sou o oposto. Sinto que estou na média, com uma tendência maior a estar feliz, de bem com a vida, procurando ver o lado positivo das coisas,inclusive daquilo que eu considero desagradável ou chato.

Agora, se tem uma coisa que não entendo, e talvez não entenda nunca, são essas pessoas que passam a vida de mau humor. Tem gente que já acorda com a sensação de infelicidade por estar acordando. Para mim, não são pessoas que se levantam com o pé esquerdo, são pessoas que só tem o pé esquerdo. Gente cujo cumprimento não é 'bom dia', 'oi, tudo bom?', mas 'tô irritado', 'tô de mau humor', 'hoje eu tô puto' e por aí vai.

Acredito que cada um é construtor da própria felicidade (e da própria infelicidade também) e que as coisas são para nós aquilo que nós queremos ver. Por isso, as situações não são positivas nem negativas, mas sempre depende de quem as vê. Por exemplo, um sábado de calor numa cidade de praia. Para alguns é a oportunidade de pegar um sol, de estar em contato com a natureza, de tomar uma cerveja geladinha, de estar com amigos. Para outros é um transtorno por causa do calor, e porque o excesso de sol pode causar um câncer de pele, e um sábado de sol faz a praia ficar lotada e porque os sábados com sol trazem a obrigação de lavar o carro e assim por diante.

Na vida transitamos entre o bom e o mau humor. Vemos as coisas coloridas ou em escala de cinza, dependendo do dia. Agora, sejamos sinceros, tem gente que nasceu com a predisposição de estar mal e ainda por cima responsabilizar os outros disso. Pessoas cujo maior prazer consiste em dizer que tudo o que de mal lhe acontece, tudo o que bonito não lhe parece, é CULPA dos outros. Parece aquela pessoa que diz: 'olha, eu estou melhor agora, mas a culpa é sua'.

Não tenho fórmulas para o mau humor das pessoas. Também não quero que elas mudem só porque eu não sou assim. Só peço que levem seu mau humor para longe. E com todo o respeito e um sorriso nos lábios, não me encham o saco.

Um abraço (à distância),

I.R.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Carta "herética" de Sexta-feira Santa

Buenos Aires, 22 de abril de 2011

Prezado,

Quando eu era pequeno, queria ter um boneco do Senhor Morto (uma imagem de Jesus morto em tamanho grande, que para mim era um boneco bom de se brincar). Não me lembro quando foi a primeira vez que ouvi a expressão "Paixão de Cristo" e não soube que paixão era sofrimento até a minha adolescência e meus primeiros amores não correspondidos.

A chamada Semana Santa, e, principalmente, a Sexta-Feira, me trazem muitas recordações e reflexões. Reflexões estas que com certeza me levariam à fogueira se fossem publicadas em um blog há 500 anos.

A primeira delas é que acho bastante cruel por parte do ser humano crer em um Deus que precisa do sangue do próprio filho para qualquer coisa. Afinal, se Deus é mesmo Des, não precisa de nada. E se esse Deus é um Deus de amor, a última coisa que necessitaria é a morte e o sofrimento de alguém, em especial do seu filho.

Depois, vale a recordação de que não acredito no pecado. Mas além de cruel, acho covarde o homem crer que seus pecados são lavados pelo sangue e pelo sofrimento de Jesus. Lavar com sangue? Covarde, sádico e bizarro. Cada um é responsável por seus atos, por suas atitudes. Ação e reação. É fácil dizer que se aceita a salvação de Jesus e que as próprias atitudes são corrigidas pelo sacrifício de outro.

Agora, entendo que toda religião tem seus mitos. E que mito vende melhor que: meu deus morreu para salvar a humanidade, mas a morte não o venceu. Ele venceu a morte, ressuscitando depois de 3 dias de ter sido crucificado? Melhor marketing impossível.

Agora, outra coisa, se para os cristãos a morte de Jesus era necessária, caso contrário não haveria salvação, por que ter raiva de Judas e por que reclamar do que fez? Se Jesus tinha que morrer, tinha que ser traído, o papel de Judas é fundamental no processo. Alguém tinha que fazer o trabalho sujo. Sem Judas não há sacrifício de Jesus.

O certo é que não tenho nenhuma resposta para tudo isso. E não quero ter. Prefiro encarar tudo isso como algo hermético, um texto inciático relatando um rito de passagem. Creio no que é Divino. Sou teísta. Mas sei pensar, não como vidro nem acho que o sangue de Jesus tem poder.

Se ofendi você, peço desculpas. Reflito e pergunto. Sou um ser pensante. Se Deus nos fez pensantes, seria uma falta de respeito à Sua criação não pensar, não refletir, não desconfiar das "verdades" que querem nos vender por aí.

Abraço,

I.R.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Carta para um devoto de Maria

Buenos Aires, 07 de fevereiro de 2011

Prezado,

Das figuras com quem mais me identifico no Panteão religioso, independente de sua denominação, a que se mais se destaca é Maria. Sei que escandaliza um pouco quando digo, mas prefiro não chamá-la de virgem, afinal eu não sei se foi, e também não acredito que a virgindade seja uma virtude em si mesma.

Deus, que é unissex, se tivesse gênero seria mulher. Mãe Cósmica, Mãe Terra, Mãe Natureza. Nenhum mulher surgiu da costela de um homem. Mas nós, serem humanos, nascemos do ventre de uma mulher. Assim, Maria não é o lado feminino de Deus. Maria é Deus, a que gera, a que cria.

Mas não me interessa falar de gênero ou sexo ou virgindade. Me interessa Maria, e sua figura amorosa, compassiva, protetora, acolhedora, dolorosa, mulher que incentiva, que luta, de fibra, geradora de vida, de milagre, de força.

Verdade ou mito? Realmente importa?

As palavras do Gita se tornam menos importantes se Krishna, de fato não existiu? Os ensinamentos de Jesus se tornam vazios se a sua figura não passar de um mito? Ideais como o desprendimento, a superação, o amor seriam menos importantes se Maria fosse apenas parte de uma história? Verdade ou não, Jesus é a mais do que a continuação de Maria. Jesus é Maria. Tudo é Maria.

O meu único problema com Maria é que a oração proposta pelo catolicismo para reverenciá-la (dizer adorá-la seria mais honesto), contém uma palavra na qual não acredito. Diz a oração: ..."rogai por nós pecadores". Nós os pecadores? Espera aí. Não acredito no pecado. Acredito que cometemos atos justos e injustos. Somos responsáveis pelo que fazemos. Creio na lei da ação e da reação. "Quem semeia vento, colhe tempestade." Lei do karma. É, no pecado eu não acredito. E se não acredito, não posso dizer que sou um pecador. Tenho acertos, erros, faço coisas boas, ruins, sou generoso e mesquinho. Enfim, um típico ser humano.

Nesse dilema, não me sobram muitas opções. Ou paro de rezar a Ave Maria ou tenho que transformá-la. Talvez uma opção seja:

Ave Maria, cheia de graça,/o Senhor é convosco./Bendita sois vós entre as mulheres/e bendito é o fruto de vosso ventre, Jesus./Santa Maria, mãe de Deus (próprio Deus),/Rogai por nós pequeninos/agora e na hora da nossa morte.

Amém.

Um abraço,

I.R.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Na véspera do Sol Invicto 2



Buenos Aires, 24 de dezembro de 2010

Meu filho,

no ano passado escrevi algumas palavras pra você sobre o Natal. O que escrevi, repito hoje aqui, com algumas alterações e alguns acréscimos.

Antigamente o Natal era uma festa onde se lembrava o nascimento de Jesus (por mais que ele não tenha nascido no dia 25 de dezembro, se é que ele nasceu), e, em função disso, se dava algum presente para os familiares ou mesmo para os amigos mais íntimos.

Hoje, o Natal é a festa de um Papai Noel imposto pela Coca-Cola, onde o que importa é se empanturrar e consumir até não poder mais. Jesus? O único que aparece nas notícias é o ex-namorado da Madonna, o tal de Jesus Luz.

Nesta véspera da festa do Sol Invicto, meu filho, o que quero lembrar a você é que não importam os nomes de Deus nem de seus filhos. Não importam as datas, pois são meras convenções. Importa manter acesa a chama do Amor.

Quero lembrar a você meu filho, que apesar de existirem pessoas racistas, xenofóbicas, preconceituosas, a cor da nossa pele não é importante. Branco, preto, amarelo, cor de cobre, é só melanina, meu filho, e não dignidade ou caráter. Não importa o país onde nascemos, pois o lugar onde nascemos não determina quem somos e como agimos com nossos semelhantes. Não importa nossa classe social, pois não somos mais ou menos honestos ou melhores pessoas se somos pobres ou ricos. O Sol Invicto nasce para todos, meu filho. E devo ser honesto com você, nasce também para os fascistas.

Então, meu filho, comamos, bebamos, ganhemos presentes, mas sem nos esquecermos de que somos uma só humanidade, e que o Amor, o Sol Invicto, deve brilhar e emanar todos os dias de nós.

Um beijo, amo você,

I.R., seu pai.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Cartinha para Santa Edwiges

Buenos Aires, 30 de setembro de 2010

Prezada Santa Edwiges,

já decidi. Na minha próxima encarnação quero nascer rico. E não digo isso porque me interesse os bens materiais ou o desejo de possuir uma fortuna.

Decidi que na próxima vou ser rico apenas para mudar o foco. É que preocupação com o dinheiro nós sempre temos. Ou por ter demais ou, como no meu caso, por ter de menos.

Então no fim do mês é aquela loucura para catar moedas no fundo do cofrinho, raspar aquela mixaria da conta, tomar cuidado para não entrar ainda mais no cheque especial, somar e chorar as dívidas com o cartão de crédito, com o cartão do supermercado e ainda tentar sobreviver com dignidade, sabendo que o salário do começo do mês não cobrirá todas as despesas.

Na próxima, está decidido, quero me preocupar se a bolsa de valores despencou ou não, em quanto está o valor do ouro, de quanto foi o lucro das minhas empresas, se compro um Picasso ou um Van Gogh para a sala, enfim, se contrato mais seguranças por ter medo de ser sequestrado ou se me mudo para Monte Carlo e passo noites me divertindo no cassino, sem pensar na remota possibilidade de falência.

Já tá. Não se discute e não se fala mais nisso. Na próxima, troco minha conta zerada no banco por algum paraíso fiscal.

Um abraço,

I.R.

sábado, 15 de maio de 2010

Para duas pessoas do dia 15 de maio.

Buenos Aires, 15 de maio de 2010

Queridos aniversariantes,

sempre digo que este blog não é um diário e que meus poemas são independentes, têm vida própria e espero que possam, pelo menos alguns, me sobreviver.

Digo e continuo dizendo isso como forma de preservar minha intimidade, não expor ao mundo o que sinto, o que quero, o que pretendo, o que amo, o que descubro. E sei que isso é bom. Afinal, minha vida não precisa ser um livro aberto, e tenho o direito a ter algo não compartilhado com os demais, sejam os demais quem forem.

Não nego que meus poemas tenham muito de mim, e que possam ser estudados como uma espécie de arqueologia igorravasquiana, fazendo referência ao meu nome, que poucas vezes escrevi por aqui, e que o que sinto ou senti, pretendo ou pretendia, amo, amei, amava, possa ser lido nas entrelinhas ou nas linhas, nas fotos ou nas músicas de todo este espaço.

Mas hoje, meus queridos, pelo menos hoje, quero me comprometer com minhas palavras, assinar claramente o que digo.

Passado e presente juntos. Passado que sempre esteve presente na minha vida e que continua presente, não por costume, mas por amor. Presente novo, em início de construção, que ainda não sabemos aonde vai dar, mas que sentimos que a construção está sendo feita com os ingredientes necessários. E de repente o passado e o presente se encontram num dia 15 de maio.

Que fique registrado que no dia 15 de maio de 2010, meu coração de filho e meu coração de homem estava cheio de alegria, ternura e emoção por poder compartilhar esse momento tão importante em suas vidas. Parabéns, meu pai; parabéns, Becky. Deus, chamem com o nome que quiserem, me permita viver muitos anos mais de momentos como esse, em muitos outros 15 de maio, ao lado de vocês.

Amo você, pai. Te quiero, Becky.

Um beijo no coração de vocês,

Igor Ravasco

PS: 01 de setembro de 2010

O primeiro homenageado desta carta, meu pai, continua sendo meu pai, e espero continuar comemorando seu aniversário por muitíssimos anos. A segunda homenageada resolveu que 2010 seria a única vez em que eu participaria do seu aniversário. Desejo que seja feliz.

I.R.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Carta de fim de ano

Arraial do Cabo, 31 de dezembro de 2009

Prezados,

2009 está chegando ao final em pouco mais de uma hora, pelo menos na Nova Zelândia. Aqui no Brasil falta um pouco mais de horas, e na Argentina uma hora a mais do que aqui. Mas isso não importa. A contagem e a passagem do tempo só não são 100% relativas por causa das rugas e da necessidade do viagra que surgem com os anos.

Esta é a época das promessas de fazer ginástica, parar de fumar, rever os amigos, começar uma dieta, ler mais, voltar a estudar, ter mais paciência, que se tornarão novamente promessas a partir de 20 dezembro de 2010, aproximadamente.

Esta é a época dos mapas astrais, das previsões do futuro, do sol e dos planetas nas casas astrológicas indicando que caminhos tomar e mostrando o que pode acontecer em nossas vidas de acordo com a estrada que tomamos. Mas nunca sem levar em conta os asteroides.

Não venho aqui falar que o mundo vai terminar em 2012 por culpa de um asteroide, ou que foi por causa de um deles que os dinossauros se extinguiram na Terra. Não sou um cientista, nem um erudito. Sou apenas um poeta que não quer que suas casas astrológicas sejam ocupadas por planetas. Os planetas são grandes e o impacto deles na vida acabam sendo pouco tranquilos. Quero um asteroide da casa 1à casa 12.

Um asteroide no meu mapa astral, e a serenidade de não fazer promessas de fim ou de início de ano. Começo 2010 com um estilo de vida robertocarliano, uma vida sem promessas, mas com propostas. Deu para fazer? Ótimo. Não deu? Paciência. E a tranquilidade de que nem tudo o que você disser será usado um dia contra você neste tribunal.

Abraços e feliz 2010,

I.R.


quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Carta para quem foge do confronto

Buenos Aires, 09 de dezembro de 2009

Prezado/a

Só temos uma vida para viver, e não é possível vivê-la sempre em função do outro, dos outros. Não devemos, ou pelo menos não deveríamos, pautar nossas decisões em procurar agradar os demais, em fazer com que as pessoas criem ou mantenham uma imagem que têm de nós.

Não podemos pseudo-viver, nos anulando em função da manutenção de uma vida que não é nossa, mas que outros, pai, mãe, mulher, marido, ex-mulher, ex-marido, namorado, namorada, filho, patrão, amigos, gostariam que fosse.

Não podemos eternamente fugir do conflito, do confronto. Fugir do confronto é um dia se deparar com o confronto em um nível mais elevado, com consequências maiores. Fugir do confronto é viver num estado de frequente angústia pela vida vivida pela metade, é ver que a vida passa por você e não você por ela.

E só há uma forma de viver. Encarando as situações de frente. Ficando na frente do problema e assumindo nossos desejos, nossas vontades, por mais que isso doa no outro, por mais que isso cause o sofrimento dos que nos rodeiam. E, com respeito, ter a cabeça erguida para dizer que não. Ou para dizer que acabou. E também para dizer sim, para comunicar uma decisão, para anunciar um projeto, para mostrar uma novidade ou apresentar um amor.

Muitos de nós tomamos decisões que não queremos tomar e aceitamos situações em nome de uma aparência ou de uma imagem que se tem de nós. Criamos ícones de nós mesmos. Chegou a hora da iconoclastia. Chegou a hora de ser feliz.

Então? Você vem comigo?

Um abraço,

I.R.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Carta para um coveiro

Buenos Aires, 02 de novembro de 2009

Prezado coveiro,

sei que seu sindicato tem trabalho o ano inteiro, sem interrupções, sem se dar ao luxo de que ninguém trabalhe aos domingos ou feriados como hoje. Seu trabalho é constante, diário e de sol a sol.

Enterrar pessoas deve ser uma tarefa dura. Cavar sepulturas, carregar caixões, limpar jazigos, lidar com a tristeza dos parentes e dos amigos da pessoa falecida, nada disso deve ser fácil. Sei que nos acostumamos com tudo, e que vivemos em uma espécie de anestesia constante quando nosso trabalho envolve dor e sofrimento, mas, confesso, não gostaria de estar nunca em seu lugar.

Não sei se ao trabalhar com a morte tão de perto, você também se faz essas perguntas que filósofos, teólogos e frequentadores de bar, entre os quais me incluo, sempre fazem. Para onde vamos? O que é a morte?

Aviso, se você espera de mim uma resposta, esqueça. Não tenho nenhuma. No entanto, posso dizer em que não acredito. Espero que você não se choque. Não acredito no céu ou no paraíso, chame como quiser, assim como também não acredito no inferno.

Não posso acreditar que existam esses dois lugares para onde vamos depois de termos sido julgados (?!). Como acreditar em um julgamento feito por um deus que já sabe de antemão o veredito? E não me falem de livre-arbítrio. Se Deus, por causa do meu ‘livre-arbítrio’ fosse um juiz que não soubesse com antecipação o resultado do julgamento, então ele não seria deus.

Julgamento? Não acredito. Céu, inferno, um lugar para tocar harpa sobre uma nuvem ou levar chicotadas o dia inteiro, ardendo num fogo que não se apaga? Não sei, mas acho que os autores dessas histórias deveriam ser contratados como roteiristas nos grandes estúdios americanos.

Voltar ao mundo reencarnado em qualquer coisa? É uma opção. Mas não consigo acreditar que um dia serei como o porco que comi hoje no almoço, e que me servirão assado com uma maçã na boca, seguindo a melhor tradição das revistas em quadrinhos.

Outra opção é a reencarnação pura, voltar à vida em outro corpo, viver novamente, me esbarrar com seres queridos de outras encarnações e procurar reconhecê-los através dos sinais, das marcas do destino. Não é uma ideia ruim, mas também não me interessa.

Talvez reste apenas não acreditar em nada, só que essa proposta também não me convence e de maneira alguma me atrai. Ter estado aqui, comer, beber, transar, ter filhos, ler, sofrer, ouvir música, navegar na internet, tomar Viagra, conversar, amar, um longo etc., depois morrer e acabou? Bom para ateus, o que não é meu caso.

Prefiro acreditar que esta é a última vez que estou aqui. E que no futuro me integrarei com a natureza, e a minha energia resistirá naqueles que se lembrarem de mim, e a minha força existirá nas coisas que eu tiver feito, e que minhas cinzas serão espalhadas por aí, em um quintal, na Praia Grande, aos pés do Obelisco, no meio da 9 de Julho ou da Presidente Vargas na hora do rush.

Bom trabalho para você. E aos seus “pupilos”, feliz dia.

I.R.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Carta para Mercedes Sosa

Buenos Aires, 01 de outubro de 2009.

Querida Mercedes Sosa,

acho que as homenagens devem ser feitas em vida. Para que esperar a morte e aí sim reconhecermos a importância que alguém teve em nossa vida? Infelizmente, não sei se por preguiça, por acharmos que somos eternos, por preferirmos falar de alguém depois que morre, esperamos a pessoa não estar mais para, então, falarmos dela.

Sua presença na minha vida é grande. Você é uma das minhas primeiras lembranças do espanhol como idioma. Me lembro das tardes, quando criança, ouvindo sua versão de ‘Volver a los 17’, com Milton, o Bituca. Me lembro ainda melhor de outras tardes, já com meus 20 anos, saboreando cada música de seu CD de 30 anos de carreira. E foram muitas essas tardes, em que deitado na cama, com os pés na janela, eu ouvia uma e outra vez cada música desse CD, quando Buenos Aires era apenas a capital da Argentina, um lugar onde tinha estado uma vez, com o Coral Cantavento, mas essa é outra história.

Você foi uma das escolas que tive para abrir meu ouvido a outros tipos de música. O ‘folklore’, a música de protesto em espanhol, León Gieco, Atahualpa Yupanqui, la zamba, la chacarera e até mesmo Charly García. Um novo universo ao alcance dos meus ouvidos.

Obrigado. Muito obrigado.

E aqui estou eu, querida Mercedes, escrevendo com você viva, lutando para se manter viva, com todos nós, seus admiradores, torcendo para que você fique conosco por mais tempo. Sabemos que quando você não estiver com sua presença, sua voz será sua mais fiel representante nesta terra. Seria bom tê-la mais tempo, desfrutar mais tempo da sua voz em vida. Agora, se você não puder mesmo ficar, vá com os mesmo anjos, esses que sempre foram testemunhas do seu canto.

Das poucas coisas que sinto não ter feito nesta minha ainda curta vida, incluo nunca ter ido a um show seu. Paciência. Em outra vida será.

Um grande abraço,

I.R.

sábado, 29 de agosto de 2009

Carta para Belchior

Buenos Aires, 29 de agosto de 2009

Prezado Belchior,

Talvez você esteja acompanhando o rebuliço que causou a reportagem do Fantástico, comentando o seu desaparecimento. O resultado da matéria foi uma série de brincadeiras e também de homenagens, valorizando o seu trabalho, trazendo de volta a sua arte e tratando com humor essa sua ausência de dois anos.

Antes de mais nada, espero que você esteja bem.

Quanto ao sumiço, não nos conhecemos além de algumas das suas músicas, não me sinto capacitado para dizer ou comentar os motivos que levaram você a essa decisão. Dívidas? Falta de reconhecimento? Depressão? Não sei e provavelmente não me interesse saber.

Sei que você é de uma geração importante na música brasileira. A geração nordestina dos anos 70. Geração de trovadores. Você, Fágner, Amelinha, Ednardo, Zé e Elba Ramalho, Alceu Valença e Geraldo Azevedo. Juntos e, principalmente, separados, vocês mostraram ao ‘sul maravilha’ que o nordeste era mais amplo do que a Bahia e que sua música não era apenas xote, xaxado, baião, forró e frevo, mas também urbana, de protesto, romântica, com letras instigantes, sem abandonar toda a herança da música regional.

Não sei se você se lembra, mas há alguns anos, Tom Zé estava no ostracismo. Não era conhecido pelas novas gerações e as antigas gerações também não lhe davam o reconhecimento de seu valor musical que lhe era devido.
Tom Zé estava de malas prontas para ir cuidar de um posto de gasolina no interior da Bahia, quando uma ligação de David Byrne o trouxe de volta ao cenário musical, nacional e internacional.

Não digo que isso vá acontecer com você. Afinal, vocês são pessoas diferentes, com carreiras diferentes e talvez a sua música não tenha esse perfil internacional. Mas o que importa, não? O importante é ter o próprio espaço, ser reconhecido por ele e, no seu caso, continuar produzindo.

Bem, Belchior, é isso. Se você estiver me lendo, espero que volte. A sua família, o seu público e a música brasileira estão te esperando.

Um abraço,

I.R.

PS: Acredito que as brincadeiras feitas com o seu desaparecimento se devam ao caráter jocoso do brasileiro, de brincar com tudo, com todos, inclusive em momentos que exigiriam maior seriedade. Espero que você esteja bem e se divertindo com todo esse fuzuê.

PS1: Que falta Elis Regina fez à sua carreira, não?





I.R.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Carta para o Almirante

Buenos Aires, 22 de junho de 2009.

Prezado Almirante,

A coisa tá feia, a bruxa tá solta e a luz de alerta foi acesa.

Quando, no final do ano passado, a queda para a segunda divisão foi confirmada, um conhecido meu, corintiano, me disse: “você vai ficar mal acostumado com as vitórias no ano que vem”. Se olharmos para a campanha do Corinthians na segundona, fica fácil entender essa previsão.

Aí o ano começou. Fomos garfados na Taça Guanabara, fomos eliminados na semifinal da Taça Rio, mas tudo bem. Era começo de ano, time em renovação, procurando o seu melhor entrosamento e o campeonato carioca é importante, mas também não tão importante assim para merecer o meu sono e a minha preocupação.

Eis que surge a Copa do Brasil, caminho mais rápido para a Taça Libertadores. E nossa caravela navegava com vento, firme, até a semifinal. E no segundo jogo com o já citado Corinthians, foi pênalti. Só o juiz não viu. Mas, enfim, garfados ou não, não adianta chorar sobre o gol não marcado, sobre a infração não cobrada. Lamento apenas o Gigante da Colina ter usado um time misto na derrota para o Paraná. Afinal, não temos tantos jogadores de reposição. A grana é curta e o que se vê em campo sofre com essa limitação.

Fato é que depois dessa derrota o Vasco vem acumulando empates da segunda divisão. Acostumado com as vitórias? Não! Desesperado com os empates. Não é possível que o líder da série B seja um time rebaixado este ano para a segunda divisão do campeonato paulista. E nós, com uma quinta colocação xinfrim, não estamos entre os 4 que sobem para a série A.

Almirante, abre o teu olho! Não vá me fazer a falseta de deixar a caravela bater num iceberg.

Mudando de assunto, você viu o Joel Santana dando entrevista em inglês. Eu achei um exemplo, e não é brincadeira. O cara não se acomodou. Correu atrás e mostrou que é possível aprender e ser delicado com as pessoas do país que o acolheu, mesmo que seja uma acolhida temporária, afinal, ele não vai ser técnico da África do Sul eternamente. Tem gente por aí criticando o sotaque e a maneira como ele fala. Essa mesma gente que vai a um show de rock e orgasma quando o artista gringo diz um “Bom noite, RRiou”, ou um “Muitcho obrigadou”. Força Joel! Menos no jogo com o Brasil, claro.

Ah, e falando de gringos, você, que é meio brasuca, meio portuga, por que não me contou que Saramago tinha um blogue? Rapaz, estava lendo as notícias do Brasil e me deparei com isso: http://caderno.josesaramago.org/ Tem uns negócios interessantes por lá. Eu não concordo com tudo, mas que o homem escreve bem, isso escreve.

Bem, Almirante, me desculpe por tanta informalidade. Acho que isso é fruto do sofrimento que compartilhamos. Bem, abre o olho! E que no final possamos gritar juntos “Terra à vista!”

Um abraço,

I.R.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Carta para um escravo



Buenos Aires, 14 de maio de 2009.

Prezado escravo,

Antes de mais nada, quero que fique claro que não estou escrevendo para os africanos trazidos para a América ou mesmo para os índios capturados e “domesticados” ou ainda para qualquer outro capturado de qualquer outra época e submetido ao trabalho braçal, serviçal, forçado, obrigado, etc.

Também não estou escrevendo para aqueles trabalhadores enganados a quem são prometidos mundos e fundos, mas que em pouco tempo descobrem-se sem fundos e atolados em dívidas com o patrão, isto é, com o seu novo dono.

Escrevo para você, escravo. Escravos. Todos nós. Escrevo para mim também. Eu, tantas vezes escravo de tanta coisa.

É tão fácil nos escravizarmos. É tão simples termos não apenas um, mas vários senhores. Sempre dispostos a nos disciplinar com pelo menos 50 chibatadas nas costas. Somos escravos dos nossos vícios, escravos dos nossos desejos, das nossas vontades, das nossas ideias, da sociedade, do que pensam ou pensarão de nós. Escravos de uma falsa liberdade.

Vivemos uma falsa e difundida liberdade. Acreditamos que podemos escolher, decidir. Mas uma escolha entre as opções A, B, C, D e NRA (Nenhuma das Respostas Acima) não é realmente um poder de decisão. Nossa liberdade é vigiada. Nossas escolhas são orientadas. Podemos marcar uma opção, mas apenas uma. Não há resposta pessoal. Não há prova discursiva.

Estamos, como ratos de laboratório, correndo dentro de uma roda. Não tratamos de conquistar o mundo. Não podemos conquistar nada além das possibilidades A, B, C, D e NRA, e apenas uma dela. E ai de nós que a resposta seja NRA, uma resposta que não quer dizer nada, não explica, não responde. Uma não-resposta que nos deixa parados sem nos dirigir a lugar algum.

Amigo escravo (digo isso também diante do espelho), não somos marionetes nas mãos de algum deus cruel ou alguma criança brincalhona. Somos fantoches de nós mesmos, arrotando uma liberdade de fachada e sentindo-nos felizes com isso. A Matrix não existe e Second Life é uma bobagem. O mundo “real” é chato assim mesmo.

Mas ser escravo, afinal, não é tão horrível quando na primeira pergunta a opção A é uma noite de carinho e amor com o filho dormindo e você com ânimo renovado. E na pergunta seguinte a opção B é ver o Vasco voltar à série A. E na próxima, a resposta é C, cervejada e churrasco com amigos... E NRA é a resposta de apenas uma pergunta: Quando você vai morrer? A- hoje, B- daqui a 20 anos, C- daqui a 40 anos, D- daqui a 60 anos e E- NRA.

Nessa vida, só espero que o chicote desça suave.

Um abraço,

I.R.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Carta para um pedreiro

Buenos Aires, 09 de abril de 2009.

Prezado pedreiro,

Se alguém entrar em contato com você para certo tipo de trabalho, por mais que a crise seja grande e o trabalho realmente esteja em falta, diga não. Aceite construir edifícios, escolas, casas, cinemas, teatros, e um longo etc. Mas não aceite construir muros.

Não sei quando foi construído o primeiro muro com o fim de segregação. Fique claro, não falo de muralhas como as da China ou a de Jericó que tinham como função defender uma população de invasões estrangeiras, mas falo dos muros que procuram “defender” os ricos dos pobres, do que procuram mostrar aos inferiores militarmente que eles não têm direito a um Estado próprio, daqueles que indicam a sua condição social, dos que são construídos com base na mentira em que é necessário defender a ecologia. Falo dos muros da vergonha, dos que separam ideologias e isolam famílias, amigos, dos que mostram que os fortes realmente pouco se importam com os fracos.

Aqui na Argentina, na grande Buenos Aires, o prefeito de San Isidro, município famoso pelos seus mauricinho e suas patricinhas (isso não significa que todos seja assim), quer construir um muro para separar o seu município do vizinho, San Fernando. O limite entre os dois município é marcado pelo contraste econômico e social. É mais fácil construir um muro do que pôr em prática um projeto de políticas públicas que aumente o emprego, que invista em educação.

No Rio de Janeiro, o governo quer cercar as favelas, em nome da proteção à mata, para que as favelas não continuem crescendo sobre a vegetação que ainda resiste. Um muro “ecológico”. Mentira. É mais fácil construir um muro e segregar os “favelados” do que executar um projeto real de urbanização das favelas, de postos de trabalho para os seus moradores.

Nos EUA, o muro foi construído na fronteira com o México, para impedir que os mexicanos (e outros pobres) “invadam” o território americano, norte-americano, estadunidense, chame como quiser. Preciso fazer algum comentário?

Em Israel, o muro é para separar os palestinos “terroristas” do verdadeiro povo de Javé. A quem importa se famílias são separadas ou se pessoas têm dificuldades para chegar a seus trabalhos ou se são tratadas como seres humanos de segunda, não é mesmo?

Bem, amigo pedreiro, é isso. Boas construções, mas nada de muro. Eles discriminam, separam e “legitimam” a desconfiança, o medo e nunca são solução, apenas mais um tempero ao problema.

Aos muros, as marretas!

Um abraço,

I.R.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Carta para um católico

Buenos Aires, 25 de março de 2009

Prezado católico,

O principal problema da sua organização é também a questão menos resolvida da humanidade. O sexo.

Desde que o mundo ocidental se tornou católico que sexo e culpa ou sexo e pecado se tornaram sinônimos. Um de mão dada com o outro. O sexo passou a ser um tabu e como tal deve ser temido.

Poderíamos enumerar algumas questões como o celibato dos padres, a virgindade até o casamento, a insistência sobre um Jesus solteiro e a santificação da virgindade de Maria, antes e depois do parto. Durante, não. Mas segundo a crença, houve uma restauração milagrosa do hímen. (Fala sério!)

Certa vez perguntaram a um padre: Padre, o sexo antes do casamento é pecado? Ao que respondeu: Só se atrasar a cerimônia. Desde quando a virgindade é sinônimo de virtude? Por que nós, humanos, que temos a noção de prazer, teríamos relações sexuais apenas para a procriação? Porque um papa, um bispo, um padre, pedófilo ou não, homo ou heterossexual, decidiu que vamos todos para o inferno por isso? Por que ele não pode, ninguém mais pode?

Que culpa tenho eu se a organização resolveu proibir o casamento deles por motivos econômicos? Ou você acreditava nessa lenga-lenga de que o padre não se casa porque assim pode servir melhor a Deus. Mentira. Não se casa, porque ao casar-se e ter filhos, estes passariam a ter direito à herança. E quem é que paga essa conta?
Vocês preferem um modelo hipócrita, onde os padres se masturbam ou atacam crianças ou tem namorados ou namoradas clandestinos ou escondidas, mas são solteiros, são aparentemente castos. Ok. Dou a mão à palmatória, existem raras exceções. Tão raras que contamos com os dedos da mão esquerda do Lula.

E você vem me dizer que a Bíblia não fala sobre nenhuma mulher de Jesus. Bem, a Bíblia não é um diário ou um blog. Também não fala que Jesus cagava, arrotava e soltava peidos fedidos. Ou você acha que quando ele soltava um gás, fazia um milagre para que tivesse cheiro de rosas?

Agora, para mim, a melhor de todas é que Maria, nasceu virgem, concebeu virgem e morreu virgem. Já que depois do parto um hímen santo voltou a aparecer no lugar do anterior. Não será demais? Isso me faz lembrar uma garrafada que vendiam no Pará ou no Amazonas que prometia a volta da virgindade. Isso antes do tempo da himenoplastia. Não estou discutindo a santidade de Maria. Acho que Maria é santa, intercede por nós e é tão ou mais importante do que o Pai, agora, se você acredita que ela é tudo isso por causa de um hímen, então retiro tudo o que disse sobre ela.

Afinal, Maria era casada com José e o que é normal numa relação a dois é que, pelo menos de vez em quando, exista uma relação sexual, ou chame como quiser, coito, foda, trepada, metidinha. E ao imaginar José e Maria tendo relações sexuais, filhos (incluindo Jesus, por que não?) isso não a faz menor ou menos importante. Isso a faz grande. Uma mulher completa. Completa e feliz.

Amigo, católico, preocupe-se menos com virgindades, castidades, celibatos, etc. Vá namorar, beijar na boca, transar e ser feliz.

Um abraço,
I.R.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Carta para os carecas

Buenos Aires, 16 de março de 2009.

Prezados Carecas,

Diz a lenda que é de vocês que elas gostam mais. Mas não pretendo discutir com você sobre a veracidade ou não do dito popular. Se é por causa do excesso de testosterona ou pela economia que significa na hora de comprar produtos de higiene pessoal, como o xampu. Realmente, não vem ao caso.

O fato é que venho percebendo que os carecas estão dominando o mundo. O mundo, sem que percebamos, está se tornando calvo. Talvez o desmatamento das florestas seja além do reflexo de que o ser humano é capaz de se autodestruir, um sinal visível de que o homem quer tornar o planeta à sua imagem e semelhança. Calvo.

Basta andar pelas ruas para ver que a calvície se alastra pelas cabeças masculinas e, por que não, das femininas também. Mulheres com cabelos ralos, com pouco cabelo, com entradas, com o couro cabeludo à mostra. Um dia ainda diremos: “é das carecas que eles gostam mais”. Ou, numa entrevista sobre sedução: “qual é a parte da mulher que mais te seduz? a primeira para onde você olha, a coxa, os seios, o bumbum?” “que isso?! não há nada melhor que um bom couro cabeludo, uma careca brilhante, estilo Pinah, mas sem raspar, natural.”

Isso me faz lembrar que existem os falsos carecas. São aqueles que tendo vasta cabeleira, resolvem raspar a fim de enganar a população simulando serem do novo grupo dominante. O falso careca te engana, te promete calvície eterna, mas tem de passar máquina ou gilete de x em x tempo para não deixar à mostra quem ele realmente é, um impostor.

Poucas telhas à parte, sempre achei mais digno ver um careca assumido do que um envergonhado que, vendo o seu cabelo dar-lhe adeus, resolve fazer alguma coisa para diminuir o impacto visual de sua falta de material capilar. O que eu não entendo é se eles não percebem que tentar disfarçar a careca é ridículo? Ou alguém acha bonito ver um homem com o lado direito da cabeça (o rodapé) com longas madeixas, prontas para serem passadas pela cabeça calva (como se fosse uma ponte), para o lado esquerdo, grudando os fios com saliva, água ou gel. Ou ainda os que deixam os fios da parte de trás crescerem e jogam para a frente, sobre a testa proeminente, de um 20 centímetros, talvez. Alguém olha e consegue não sentir vergonha pela outra pessoa? E implante? Tem coisa mais horrenda que ver um careca da noite para o dia, como num passe de mágica ou um milagre, acordar com cabelo e topete?

Sim, tem, uma coisa mais horrenda. Peruca. E aqui eu me calo. Não há nada que eu possa dizer que vai explicar o desagradável que é ver uma peruca caminhando pela rua com uma pessoa embaixo dela.

E existem loções, tratamento pseudocientíficos, injeções, massagens e uma variedade enorme de etcs. O que me leva a resumir no seguinte: quando o assunto é queda de cabelo, a esperança não é a última que morre. Sabemos que o primeiro que morre é o próprio cabelo. Mas a última que morre, é a vergonha.

Um abraço,

I.R.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Carta para o Império Serrano

Buenos Aires, 25 de fevereiro de 2009.

Querido Império Serrano,

Antes de mais nada, e como já é um costume em minhas cartas, quero explicar o que me leva a escrever para você. Escrevo, amigo Império, para declarar a minha solidariedade no dia de hoje.

Ainda não sou um entendido em segunda divisão. Minha estreia vai acontecer em alguns meses, mas mesmo não sabendo o que se sente estando lá, sei que é duro chegar. No caso que me toca, o do Vasco, você sabe que a segunda divisão foi o merecido castigo por uma péssima política que governou o time da caravela por tantos anos. Mas no seu, amigo Império, foi covardia.

Não vi todas as escolas. Simplesmente não aguento ficar acordado, e mesmo se aguentasse não poderia. Aqui não é feriado, nem informalmente como no Brasil, e em todos os dias seguintes eu tinha de acordar cedo para trabalhar. Mas apesar de não ter visto todas, vi algumas, e te vi, Império.

E vi como a sua história mais uma vez a mostrou grande na Avenida. Você estava alegre, cheia de vida, levantando a Marquês de Sapucaí. Foi um desfile bonito, simples, carregado de energia e emoção. Um desfile digno de um carnaval em tempos de crise.

Mas não bastou. Foi pouco, ao menos para os jurados. Parece que os julgadores do carnaval seguem a máxima de Joãosinho Trinta: “O povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual”, e não quiseram ver o seu Luxo, Império Serrano. E o seu Luxo foi o esse mesmo povo cantando o seu samba-enredo, foi a sua bateria dar um show de musicalidade, foi a sua garra de fazer um trabalho lindo numa época de vacas magras.
Não tem nada, não. Você, e nós também, saberemos dar a volta por cima. E ninguém tira os seus 9 títulos, e ninguém se esquece de “Lendas das Sereias, Mistérios do Mar”, nem de “Aquarela Brasileira”, nem de “Cinco Bailes na História do Rio” ou “Heróis da Liberdade”, “Exaltação a Tiradentes” e muito menos “Bum Bum Paticumbum Prugurundum”.

Império Serrano, você não só é parte da história do carnaval. Você é carnaval.

Agora, frente à cegueira dos julgadores do carnaval deste ano (e procurando voltar ao lugar de onde não deveríamos ter saído), apenas nos resta cantar... Reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.

Um abraço do mangueirense,

I.R.

PS: Não gosto de multidão. Não gosto de suar no meio da multidão. Não gosto dos excessos desses quatro ou cinco ou sete dias de folialoucura. Mas daqui desses muitos quilômetros de distância, só me resta assumir a minha verdade. Sinto saudade do carnaval. Gosto de batucada, gosto de samba, acho que o axé pode ser muito divertido, mas em excesso me cansa. E o funk? Ah, o que seria do carnaval atual sem certas pérolas do funk?

PS2: Ao Salgueiro, meus parabéns!

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Carta para Edmar Moreira

Buenos Aires 17 de fevereiro de 2009.

Pouco prezado ainda deputado Edmar Moreira,

Não me interessa saber da sua vida, se você (não pretendo chamá-lo de Vossa Excelência) está bem ou como vai a sua família. Escrevo apenas para tecer alguns comentários.

Primeiro, tenho pena de seus mais de 90 mil eleitores. Mas mais pena tenho de um país que tem 93.360 mil habitantes que acreditem em alguma proposta sua e o elejam deputado.

Ex-PM truculento, empresário sonegador, homem de falcatruas, maracutaias. E deputado.

Você quase foi o Corregedor da Câmara dos Deputados, isto é, o responsável pela apuração de conduta incompatível com o decoro parlamentar. Você!? Para tudo! Um homem que não repassava a contribuição social dos seus funcionários, um homem que tinha um castelo de estilo medieval no interior de Minas Gerais?(construído com que dinheiro?)

Não, Edmar, não dava para você ser corregedor. A sua conduta é incompatível com o decoro parlamentar. E o que você iria fazer? Apurar a sua própria conduta?
E esse castelo? Para mim, os castelos se tornaram museus, hotéis e alguns, claro, continuam sendo residências, mas lá na Europa. Aqui na América do Sul, os castelos aparecem nos contos de fada, nos desenhos animados. Os castelos de verdade aqui no lado de baixo do Equador são uma ostentação de riqueza quase sempre erguida com dinheiro ilícito.

Para mim, os castelos estão ligados às princesas. Mas você, Edmar Moreira, não passa de um sapo que não se tornará um príncipe nem com todos os beijos do mundo.
Sai o dono do castelo, entra O Herdeiro. Sinceramente, não sei quem é pior, se você ou seu substituto. ACM Neto como corregedor, analisando o decoro dos colegas? Para tudo! Ou todo mundo já esqueceu o discurso dele na Câmara dizendo que ia dar uma surra no Lula.

Bem, seu Edmar, são comentários, apenas comentários. Já não tenho o poder do voto para renovar a Câmara. Só voto para presidente e estou de acordo com ele. “São 300 picaretas com anel de doutor”.

E aproveite seu mandato. Espero que o novo corregedor tenha ao menos a decência de investigá-lo e descobrir a origem dos 25 milhões de reais do seu castelo e que o seu mandato seja breve. E sem volta.

Cordialmente,

I.R.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Carta para Michael Phelps

Buenos Aires, 7 de fevereiro de 2009.

Prezado Michael Phelps,

Nunca pensei que um dia fosse escrever uma carta para você. E, claro, você já sabe que depois de tantos meses não estou escrevendo para te dar os parabéns por todas as medalhas de ouro conquistadas na última olimpíada.

Que você é um fenômeno da natação, isso ninguém duvida. Agora, que você fosse tão ingênuo, isso ninguém sabia.

Desculpe-me a franqueza, mas a sua ingenuidade me assustou. Então você pensou que poderia desafiar o mercado criador de herois e sair impune? Você achou que poderia ser apenas um nadador, um ser humano comum?

Não, amigo. Os criadores de heróis não perdoam nenhum descuido. E fumar maconha não condiz com a sua imagem usada para ganhar dinheiro. Um herói não consome maconha. Um exemplo para as criancinhas americanas não pode ter uma mácula.

Talvez se você tivesse tomado uma dose de uísque ou consumido uns comprimidos de Viagra ou tivesse sido visto com umas garotas de programa o seu heroísmo não tivesse sido abalado. Mas cannabis sativa, ganja, amigo? Teus patrões não perdoam isso.

Mas sejamos sinceros, todos sabemos que a maconha não melhora o rendimento de ninguém. Você de cabeça feita iria ficar, no máximo, mais lento... Talvez os seus adversários devam passar a te oferecer maconha antes das provas. Quem sabe assim você não perde algumas?

Tô solidário! Não é possível que precisemos de heróis imaculados, de símbolos, de exemplos para viver. Tenho pena das crianças que crescem acreditando em pessoas perfeitas e não se preparam para a realidade. Não somos santos. Não somos exemplo livres de manchas uns para os outros. E essas crianças crescem sem aprender a respeitar a vida privada da pessoa pública, num circulo vicioso à procura de um novo herói que substitua o que caiu em desgraça.

Bem, Michael, não tenho muito mais a dizer. Tenho pena de você por ter tido que dizer que tinha errado, que estava arrependido e que se aprende com os erros. Talvez você tenha aprendido tarde demais que o patrão criador de heróis não admite falhas. Tudo em nome das criancinhas. Tudo em busca de dinheiro.

Te mando um abraço. Te desejo força. E que o espírito de Bob Marley te acompanhe!

I.R.