sábado, 28 de setembro de 2024

vibrante

acho rimar sorriso com preciso,
do verbo precisar, sinônimo de necessitar,
brega,
e o mundo não precisa desses versos.
assim como não preciso do seu sorriso,
mas gosto de olhar pra ele,
gosto de trazê-lo,
ou visualizá-lo em sua ausência.
adoro seu sorriso, exibido com precisão
por sua boca grande e por seus olhos.
mas, conste em ata,
amo sua gargalhada
e o que ela desata,
expressão de humor, de amor... de vida.
e vida em abundância.

I.R.

quinta-feira, 26 de setembro de 2024

perambulando

acredito na caminhada,
no caminho,
não no destino.
não estou destinado a nada,
vou pela estrada, estudando, 
descascando abacaxis,
cortando pepinos,
na busca do simples.
a cura é simples,
mas dá trabalho.
sempre é hora de derrubar o tótem, 
amar e ser amado não é tabu.

I.R.

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

anátema para eros

anamnese feita,
analisada pelo analista,
análise de diálogo, de escuta:
há na obra uma anáfora
que, transbordando uma ânfora,
troca a metáfora pelo anacoluto.
há na obra um anagrama,
uma anarquia,
há dois seres, anatomia,
voltando da anabiose
(sinônimo bonito para a hibernação).

I.R.

terça-feira, 17 de setembro de 2024

assim seja

te ponho na mira,
te cheiro na mirra do incenso
da missa pagã da manhã,
que nada apaga.
(lenha macia como o lençol.)
você me lê e sabe,
meus amigos me leem e intuem.
enquanto penso em voz alta,
navegando nessa caravela,
recatado e lascivo.
sinto que há vida e sei o porquê.
sinto... porque estou vivo.

I.R.

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

vastidão (revisitada)

olha, ouve.
vê, vê.
vem, vou...
viagem de vagões inusitados,
vulneráveis...
verdades e vacilações.
o variado de sempre
ou o de várias vezes,
o variado novo.
ouvindo o vento de novo,
sorvendo o vinho,
vivendo...

(com a intensidade de um vaga-lume)

I.R.

sábado, 7 de setembro de 2024

absurdo

as aparências não enganam,
são só aparências,
(não são essências florais,
nem florais de bach)
são apenas a essência do que se vê...
e quem vê cara, não vê coração.
essencial é ser a pessoa que se é
(que sou)
-essencialmente-
-somente-
assumir minha própria existência,
beber no poço das minhas contradições.
talvez o progresso seja um engodo
e o caminho circular...

vou dando sentido a esse nonsense

I.R.

domingo, 1 de setembro de 2024

cabo da nau

não acredito em deus,
(ou talvez em quase todos eles)
mas acredito na tia que canta o louvor,
acompanhando o violão do sobrinho.
acredito em sua fé,
que não é a minha,
e somos um no amor à música.
me alegrei com sua alegria
cantei com ela, com gosto,
enquanto ela louvava seu deus
e eu celebrava a nossa humanidade.

I.R.

sábado, 24 de agosto de 2024

ravascando

sei lá se você ravasca,
se sai da casca,
se você se lança
só sei que nessa dança
eu ravasco...
será que se você ravascasse...
não sei, 
eu ravasco,
mas não ravasqueio,
porque ravasquear
não é ravascar,
e se ontem ravasquei,
se amanhã ravascarei
é porque ravascar não se define, afinal. 

I.R.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

reflexo

coloco a criança no verso,
ponho a palavra no berço.
refletido na janela,
me reconheço palavra e criança,
no berço, no verso, no reverso da medalha
que já não uso,
eu tão esclarecido e tão obtuso,
tão adulto e tão infantil.
ansioso, zen e sem paciência,
na adultez e na adolescência,
sou palavra, verso, berço, criança,
alegria, tristeza e esperança...
sou do verbo ser, ser do verbo estar.

I.R.

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

possivelmente

talvez seja o momento,
seja a hora, seja o dia.
talvez seja o tormento,
a tempestade, a alegria.
talvez seja a melancólica espera,
ou apenas a esfera que gira,
e que nada responde.
talvez seja uma profusão de gametas, 
uma produção de cometas, 
uma chuva de meteoros, 
tácteis e sonoros. 
não sei... quase sempre não sei. 
nenhum texto sou eu, 
mas todos são sobre a existência 
de quem os escreve, de quem os lê, 
talvez seja...  talvez não... 
quiçá... 

I.R.