discordar é fundamental,
assim como é essencial
fundamentar a discordância.
debater, negar, aprender,
e concordar só quando for inevitável.
duvido, logo existo.
não sou cético,
mas prefiro ir na contra-mão.
temos muitas manias
e muitas manhas.
temos desejos demais,
e coisas demais.
não temos todo o tempo do mundo,
e estamos presos
atrás de um texto coeso,
atados a uma lógica interna.
enquanto do outro lado das grades,
do lado de fora da caverna,
a arte, pelos olhos do pintor
pintado na parede,
olha para nós.
jogo a rede para pescar uma ideia,
e vem um pneu.
insisto com a tarrafa,
e vem uma bota,
uma garrafa,
um verso de pé quebrado.
jogo a rede para pescar uma ideia,
pois é preciso pegar ritmo,
e manter o equilíbrio,
com muito cuidado,
para o barco não virar.
o texto é uma diagonal,
não uma reta,
pois reto é o horizonte
em seu desejo de permanência,
ou reta é a vertical
no seu sonho de transcendência.
mas o texto,
esse não quer permanecer
nem transcender,
quer questionar.
o texto, esculpido no paralelepípedo,
tosco, frio, impreciso,
quer apenas ganhar a beleza do detalhe,
a fuga da linha diagonal,
quer perverter a simetria,
adquirir a textura da poesia,
aquela obliquidade transversal.
não há fórmula ou receita
nem caminho certo,
esquerda ou direita,
que possamos formular.
só é possível
dizer o já dito,
se podemos dizer o mesmo
com palavras diferentes,
porque o amor de hoje
é diferente do amor de ontem,
e o que fui e já não sou,
se transformou nesse novo eu
que festeja a cada mês
o cantar para você.