segunda-feira, 31 de março de 2008

De um eu poético

Se os meus versos são todos parecidos
E se as rimas parecem sempre as mesmas,
Enchendo cinco folhas ou três resmas
Com angústias e amores bem vividos,

É porque não escrevo os meus latidos
Ou minhas caminhadas entre as lesmas,
Já que as voltas da vida quase as mesmas
São: com sorrisos, choros e gemidos.

E a mágica é escrever novos poemas,
Usando quase sempre os mesmos temas,
Vivendo nova angústia, outra agonia,

Ou a nova paixão inesperada;
Até que não me reste a mim mais nada
E só passe a fazer metapoesia.

I.R.

domingo, 30 de março de 2008

Carta para Drummond

Buenos Aires, 30 de março de 2008

Caro Drummond,

faz anos que tenho vontade de escrever para você, para responder uma pergunta sua que conheci nos meus tempos de faculdade. Trata-se do poema Cota Zero.

Cota Zero

Stop.
A vida parou
ou foi o automóvel?

Longe de mim escrever essa carta com pretensões de crítica literária. Outros já fizeram isso, e com certeza, muito melhor do que o que eu poderia fazer. Mas essa pergunta ronda a minha cabeça e coça os meus dedos para eu me sentar e dizer o que acho.

Muita coisa pára. Mas acho que, hoje, os carros já não param. Aqui na Argentina quem parou foram os tratores, em uma greve agrária de mais de 15 dias. Mas os carros, esses não param nunca. Esses andam cada vez mais rápido, desrespeitando leis de trânsito, placas, acostamentos, pedestres, fazendo com que o automóvel se transforme em uma arma na mão de motoristas despreparados, egoístas, irresponsáveis com a própria vida e com a vida dos demais.

Os carros não param. Capotam, batem e atropelam.

E a vida, pára? Acho que depende. O que é vida? Se pensamos que é apenas nascer, crescer, nos reproduzirmos e morrer, e enquanto vamos ensaiando a reprodução, trabalhar, comer, cagar, mijar e ver televisão, talvez a vida não pare, mas esteja parada há muito tempo. E não estou falando de nada religioso. Longe de mim a pretensão de dizer o que é a vida. Afinal, o que é bom para mim, pode não ser bom para outra pessoa. Mais longe ainda fazer um discurso dizendo que apenas quem tem deus (qual deles?) no coração tem a vida plena.

Mas sinto dentro de mim que a vida não é só a repetição de coisas que fazemos, enquanto esperamos a hora de morrer bater na nossa porta. Sinto que a vida é a beleza do encontro e a necessidade do isolamento para encontrar-me comigo de vez em quando.

Não sei se você leu a minha carta para os meus colegas de faculdade, mas nela eu falo um pouco sobre a arte do encontro, tema da redação do meu vestibular. Sinto que se não há fraternidade entre as pessoas, se não existe a busca da compreensão, se não há respeito pelos outros, a vida vai se tornando apenas uma casca ou algo imóvel. Para mim, viver no egoísmo, no individualismo, no “umbiguismo” faz do homem um ser sem vida, por mais que a pessoa esteja viva.

E o que eu vejo, Drummond, neste mundo onde vivo, é que a sociedade é basicamente “umbiguista”, preocupada apenas com o próprio umbigo, com o próprio bolso, com as próprias angústias e misérias. Cada um por si. Ou cada um por si e deus contra todos, como dizem os Titãs.

Pode ser que este seja um pensamento romântico, utópico, irreal, delirante, mas espero que me deixem com meu romantismo brega... prefiro o lema dos três mosqueteiros, “um por todos e todos por um”. Prefiro acreditar que a vida pode ser para todos, e que a palavra respeito pode ser nossa bússola. Na minha opinião, o poema, Drummond, hoje seria:

Stop.
A vida parou.

Um abraço, e que a força o acompanhe,
I.R.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Feira americana

Seu riso verdadeiro é amarelo
Sua alegria espontânea é de fachada
Uma atuação brilhante, mas bichada
Perfeita sedução pé-de-chinelo

A quem você engana em seu castelo?
A muitos, eu já sei sem saber nada
E sei também da alma desalmada
Que você mostra a todos qual flagelo

Se você dá farelos e migalhas
Se em vez de coisas boas só dá tralhas
Reconheço, no fundo me dá dó

Pois sei que você vive numa farsa
É um urubu fingindo que é uma garça
Que quer comprar a vida num brechó

I.R.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Um pouco de Dédalo

O início também pode ser o fim
E não termina nunca o labirinto
Há sempre o que sentir, por isso eu sinto
E sento e sou levado em palanquim

Não fui e não cheguei, também não vim
Num críptico caminho vinho tinto
Não fui primeiro ou sexto, e não fui quinto
Sou primeiro-ministro e mandarim

E também nesta corte sou o bobo
Cordeiro disfarçado como lobo
Pintando de nanquim vício por vício

E com labirintite vou sem rumo
Ando, caminho, corro e me consumo
No fim que pode ser também início

I.R.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Carta para os (ex-)colegas de faculdade

Buenos Aires, 26 de março de 2008

Queridos (ex-)colegas de faculdade*,

desde dezembro do ano passado que tenho vontade de escrever para vocês. Afinal, no dia 5 de dezembro do ano passado completamos nossos primeiros 10 anos de formatura. O tempo passa e muitas vezes nem percebemos... é, minha gente... 10 anos... 10 anos.

Há 14 anos, no vestibular, a redação que todos tivemos de fazer tinha como tema: Vida, arte do encontro. E acho, meus colegas, que foi isso o que fizemos durante os nossos quatro anos de estudo. Nós nos encontramos. E podemos entender esse encontro de diferentes maneiras, podemos encará-lo como o encontro que tínhamos todos os dias, e com alguns nos churrascos de fim de semana. Mas também podemos entender esse encontro como a oportunidade que tivemos de nos conhecer, de trocar de idéias, de nos tornarmos amigos e termos um passado bacana em comum.

Como diz Vinícius, a vida é a arte do encontro, meus colegas, e embora haja tanto desencontro pela vida, não acredito que esses anos em que não nos vemos tenham sido desencontrados. É o curso da vida, e cada um tem uma história a seguir, uma história para continuar escrevendo. Mas no livro de todos nós há um capítulo em comum. Um capítulo que eu gostaria de ler nos livros de vocês, já que a minha percepção não é igual a de ninguém, é minha e intransferível.

E enquanto eu penso nessa carta para vocês, percebo que o que escrevo agora vale para inúmeras outras situações e momentos de nossa vida, de pessoas que passam por nós e que escrevem conosco um ou dois, ou vários capítulos da história da nossa vida, e da delas também. Um casamento, um casamento desfeito, um antigo trabalho, um trabalho atual, um namorado, uma namorada, um grupo de amigos de infância, nossos pais, tios, avós, primos, sobrinhos, os livros que lemos, a música que escutamos...

A vida é a arte do encontro, mas é só é a arte do encontro para quem está disposto a se encontrar. Para quem não está, a vida não é nem desencontro, é fardo, é peso, é obrigação, e a felicidade se tornar um artigo de luxo difícil de se conseguir.

Não posso ler o que está escrito no livro de vocês, mas no meu, diz que foram quatro anos incríveis. Anos divertidos, de aquisição de conhecimento, de fazer amizades, de bons churrascos, de descoberta da literatura, de cerveja, anos de encontro com as meninas do primeiro ano, anos de pneumotórax e crescimento pessoal.

Tive sorte. Poderiam ter sido anos chatos, com pessoas chatas, numa clima pesado, onde o estudo poderia ter sido encarado apenas como um mal necessário para chegar ao diploma. Há situações em que isso acontece assim, ou quase assim, na vida. Mas este não foi o caso.

Aqui em Buenos Aires está chovendo, e eu não tenho vontade nenhuma de trabalhar. Mas o mal necessário é assunto para outra carta.

Um beijo grande para todos vocês. E proponho que continuemos esse nosso encontro, que nem o tempo nem a distância física são capazes de desencontrar.

I.R.

PS: *Mesmo sabendo que serei injusto e esquecerei o nome de alguém: Izabel, Andréia, Velma, Marisa, Gesseldo, Rodrigo Leitão, Ronaldo Lobão, Mauro, Denise, Rafaela, Alessandra (e o marido Marcelo que não era da turma, mas era como se fosse), Alexandra, Luciana, Leandra, Ana Paula, Fábio, André (29 ou 30), Ivan, Júnia, Márcia, Simone, Simone (de novo),  Luceli, Noélia, Katty, Eva Sandra, Angélica, Márcia, Nilton (Mutante), Cristiane, Dog (como se chamava oficialmente?... Antônio), Bebel, Flávio, Benilda, Viviane...

segunda-feira, 24 de março de 2008

Dese(j)o

Agora que o desejo está tranqüilo
Caminho pelo mundo, vou em paz
À espera de você que não vem mais,
Razão por que o querer-te já aniquilo

La esperanza que tuve por un hilo
Angustia de saber que vos no estás
Me hizo no querer quererte más
Aún queriendo, aún siendo intranquilo

Ridículo eu me sinto se te quero
Covarde se eu não fosse tão sincero,
Inteligente e doce: o mais amigo

Ahora... perdoname la ansiedad
La angustia es que te quise de verdad...
Espero que la paz siga conmigo.

I.R.

domingo, 23 de março de 2008

Sonetos subterrâneos

Quis fazer um poema muito escuro
Quis fazer um poema pessimista
Mas no que se repara à simples vista
É que ou sou infeliz ou imaturo

Quis um mote sombrio, outro inseguro
Quis ser do sofrimento um grande artista
E embora a minha mente mais insista
Percorro em meus vagões outro futuro

Que vive a cada instante a sua vez,
Sofrendo uma incessante timidez
Que some em alguns flashes momentâneos

E me espalho nos versos destes trilhos,
E sou meus ancestrais, e sou meus filhos,
E escrevo meus sonetos subterrâneos.

I.R.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Carta para Lorena Bobbit

Buenos Aires, 20 de março de 2008


Prezada Lorena Bobbit,


nunca pensei que um dia eu fosse escrever para a mulher que se tornou famosa ao cortar, arrancar, decepar o pênis do marido. Pois é, mas agora é exatamente o que estou fazendo. Como vai, tudo bem? Você tem visto o John? Soube que ele fez um filme pornô, aproveitando a fama de ter tido o pênis cortado e depois reimplantado. Você acabou fazendo dele um homem famoso.


Mas não foi para falar da história de vocês que eu resolvi escrever. É que esta semana eu entrei em contato com alguém que pertence ao mesmo clube que você, o dos cortadores de pênis. Calma, calma, não pense que aqui em casa a coisa ficou descontrolada, pegaram uma faca e num segundo cortaram uma parte de mim. Nada disso. Peloamordedeus!!! Então que história é essa de eu escrever para você?


Eu te explico. O que me cortaram foi um pênis escrito. Mais do que cortado, ele foi cortado, arrancado, pela raiz, quase como se fosse para uma cirurgia de mudança de sexo. Que saber detalhes? Eu conto.


Na semana passada, eu estava fazendo uma tradução para um programa do canal Discovery. O programa falava sobre coisas relacionadas aos pés e ao ato de caminhar, como os sapatos, por exemplo, ou o chulé. No final do programa, havia uma referência ao mito de que o tamanho dos pés corresponderia ao tamanho do pênis. E não há maneira mais discreta de chamar o órgão sexual masculino do que essa... pênis.


Bem, Lorena, mas a pessoa que fez a correção do meu trabalho não pensava dessa forma. Me mandaram um e-mail pedindo que essa palavra fosse substituída. Mas, pera lá, o que esperavam que eu colocasse? Pau? Cacete? Caralho? Piru, pinto, pistola, bilau, geba ou jeba, etc, etc, etc? Eu respondi dizendo que não seria possível trocar a palavra. Cada linha de texto precisava respeitar um espaço de 34 toques (não daria para chamá-lo de “órgão sexual masculino”, pois a frase tinha outras palavras também), e a palavra pênis é a o que há de mais científico e discreto. Pois é, respondi o famoso INPS (infelizmente não pode ser). E a decisão da produtora foi editar o vídeo, e tirar toda a parte que fizesse referência no vídeo e no texto à palavra pênis. Arrancaram meu pênis, metaforicamente, pela raiz.


Essa falsa moral me surpreendeu. Primeiro me perguntei, por que esse vídeo pode ser visto no Canadá, nos Estados Unidos, na Argentina, na íntegra, com a palavra pênis, e no Brasil o vídeo tem de ser censurado? Qual é o problema com o pênis, se quase a metade da população tem, e a metade que não tem, em sua maioria, gosta dele? Certos programas podem dizer coisas picantes na televisão, mas um documentário da Discovery não pode dizer a palavra pênis. Qual foi o problema desse pênis, tinha fimose, e nem a Discovery nem eu, quando fiz a tradução, percebemos?


Pois é, a falsa moral me surpreendeu, mas se penso um pouco mais, essa atitude não deveria ter me surpreendido, afinal, o mundo está cheio de gente assim. Gente que combate os marajás, mas sofre um impeachment por corrupção, gente que combate a prostituição, mas tem de renunciar por ter contratado os serviços de uma agência de prostitutas, gente que condena o uso da palavra pênis em um documentário, mas que vê em Bruna Surfistinha uma filósofa do século XXI.


São esses censores os que estão criando uma geração assexuada, para quem o sexo é mais do que um tabu, é um problema. Uma geração sem pênis ou vaginas. Uma geração censurada.


É isso, Lorena, espero que você esteja bem, e que as facas da sua casa estejam todas cegas, para a proteção dos seus novos namorados. E se você quer saber se o tamanho do pé tem relação com o tamanho do pênis, o médico disse que não é bem assim, a melhor maneira para saber é testando, tipo um test-drive, ou então ver a distância entre a ponta do dedão e a do indicador, quando o homem simula uma pistola com esses dedos.


Bem, vou almoçar. A gente se fala.


Um abraço,

I.R.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Vivaldiana

Viver não é viver eterna espera
De coisas sem saber se elas virão,
Mas por inteiro ver cada emoção
Como uma tentativa; a mais sincera.

Deixar o barco solto, essa galera,
Tentando ser; tentando (a tentação),
E no calor ser quente qual verão
E ter a flor de toda primavera.

Vibrando a cada novo tique-taque
Com a força de dois Bozos e um Mandrake
Indo do paraíso até o inferno

Eu sei que bem mais tarde terei sono,
Mas sabendo o sabor (frutas de outono)
Hibernarei com ardor ao vir o inverno.

I.R.

terça-feira, 18 de março de 2008

Versos de efeito

Qualquer frase de efeito tem o feito
De quase sempre ser frase vazia
Que no homem um pensar ainda não cria
Além dessa armadillha que é o efeito

E como pra fugir já não há jeito
Monto frases que nunca deveria
E vejo em velhas frases todo dia
Que aceitam o que escrevo, e não aceito

E como escrevo aquilo em que não creio?
Mentira! Leia o tema que te leio
Sinta o efeito que tem todo este jogo

E se deixe enredar pela armadilha
Da falácia, que é mãe, irmã e filha
Do efeito que nos traz o verbo em fogo.

I.R.