quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

50

cinquento com o mesmo gosto
de quem um dia quarentou.
já trintei, já vintei,
destrinchei caminhos
encontrei meus passos,
e abraço minha sombra,
com a mesma importância
que me ilumino na minha luz.
cinquento com um gosto pela vida,
essa única que tenho,
que sinto, que pulso, que vivo...
esse não sei fantástico
que acontece a cada respiração

Igor Ravasco 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

querer

não basta querer,
querer não é suficiente,
por mais que seja urgente,
é preciso propósito,
um "para que", 
mais do que um "porque"... 
é preciso fé, uma fé no mistério,
ser palhaço e ser sério,
é preciso ser a flecha certeira
cheia de coragem,
pois coragem é preciso,
um pouco de loucura,
uma pitada de juízo...
e disciplina, 
a matéria-prima da perseverança,
o agir da esperança,
porque não basta querer

Igor Ravasco 

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

um poema

dentro de um porta-retrato, um poema,
debaixo de um computador, de um celular,
dentro de uma cuia de chimarrão, um poema.
numa conversa com amigos,
tomando um vinho, uma cerva, um cachorrito,
versos e mais versos.
na hora da angústia, no momento da alegria,
na dor, na dúvida, na falsa certeza,
há odisseias e lusíadas,
há poemas luzidios, reluzentes,
há curas e sessões de análise.
dentro de um poema há vários poemas,
o meu escrito, o seu reescrito na leitura,
o nosso que se dá no encontro,
no desarmar da armadura...
no disjuntor desarmado
depois de um pico de energia.

Igor Ravasco

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

bicarbonato

o que ainda não resolvi
e o que já tô resolvendo,
meus dramas,
minhas tramas,
meus traumas...
e meus sonhos terapêuticos
que despertam
o que não ouso mencionar.
há muitos caminhos por onde ando,
nesse interior onde me descubro,
onde acerto, onde falho... 

há muitas estradas na vida,
num viver que não tem atalho

Igor Ravasco 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

clarim

no interior da minha criança interior
há alegrias e lágrimas,
abraços e abandonos,
há cláusulas e casulos,
metamorfoses,
claustros,
liberdade e claustrofobia.
no dia a dia do interior
da minha criança interior,
há uma criança anterior,
ou um primeiro lugar,
que não é meu.
no interior do meu adulto interior,
há luzes e sombras, 
os campos elíseos e o tártaro,
o ético e o bárbaro... 
há o pior... 
e o melhor de mim

Igor Ravasco 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

singeleza

queria escrever um poema
pra você ler num sarau.
um poema simples,
poesia rasteira,
como pernada de capoeira,
palavra pendurada no varal.
queria escrever um poema
pra ser lido sem dicionários,
sem ajuda dos universitários
ou a eliminação de alternativas...
queria escrever sem arcaísmos,
sem arcabouços,
um poema em troços...
mas talvez não possa, não queira,
não saiba... sei lá, não sei.

só sei que as palavras que não uso
formam poemas que não escrevi

Igor Ravasco

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

estilos

meu corpo olha teu corpo,

que olha meu corpo,

que olha o teu,

que olha o meu... 

num jogo de espelhos enfrentados,

céu de espelho, sóis, 

mundos, alteridade... 

modernidade retrô

em frente da vida que se empilha,

ao lado da vida que se espalha,

se apaga e se transforma...

pode informar as horas?

a hora é essa e sempre é agora,

não na conformidade 

de que é só o que nos resta,

mas na suavidade

de ser a cada instante


Igor Ravasco

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

ciclos

nasceu a cheia de graça,
cheia de graça, engraçada, risonha,
com uma gargalhada cheia de vida.
porém quase não nasceu,
quase nasceu trocada,
mas nasceu, enfim,
a cheia de graça seguidora do cristo,
amiga do cristo em íntimos bate-papos,
que ela nem sabia, quando nasceu,
que seriam tão profundos.
habitou mundos, foi feliz, foi triste,
bebeu, se anulou, foi anulada,
não teve onde morar, morou no violão,
e coube em caixas que não eram suas,
mas destravou pensamentos mudos,
deu voz à sua voz, à sua sombra,
ao seu espírito, ao seu eu,
sorriu, chorou, sorri, chora, se emociona,
vibra com ela e com os outros,
e se hoje se distrai,
sabendo que não é desse mundo,
é porque foi ao fundo do poço,
pra reconhecer a sua própria profundidade

Igor Ravasco 

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

terral

tenho estrelas na pele,
tantas quanto uma galáxia,
trago constelações na minha pele,
mas nenhuma tatuagem
nessa viagem interestelar.
acredito na impermanência
e nenhum desenho ou palavra
é tão permanente
a ponto de eu querer sofrer essa dor,
numa existência onde a dor
é uma experiência inevitável.
então escrevo versos
como quem ri, quem chora,
como quem geme,
quem grita ou quem late.
tatuo o eu das dores que pari
com a cor de flicts,
com dentes de chocolate

Igor Ravasco

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

-tomia

a autotomia é a autonomia
da automutilação.
mutilação espontânea
de partes do corpo
que nem sempre se regeneram,
mas a calda dos calangos sim.
a autotomia é, para o humano, a antimonotonia,
a atomização da palavra,
reduzida a finas partículas
e um caudal de imagens, de símbolos,
címbalos,  que nos lembram
que não somos lagartos,
mas somos poetas, somos gente
que perde, perde caldas, fragmentos,
espontaneamente perde partes,
num instinto de sobrevivência.

Igor Ravasco