segunda-feira, 25 de novembro de 2024

estilos

meu corpo olha teu corpo,

que olha meu corpo,

que olha o teu,

que olha o meu... 

num jogo de espelhos enfrentados,

céu de espelho, sóis, 

mundos, alteridade... 

modernidade retrô

em frente da vida que se empilha,

ao lado da vida que se espalha,

se apaga e se transforma...

pode informar as horas?

a hora é essa e sempre é agora,

não na conformidade 

de que é só o que nos resta,

mas na suavidade

de ser a cada instante


Igor Ravasco

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

ciclos

nasceu a cheia de graça,
cheia de graça, engraçada, risonha,
com uma gargalhada cheia de vida.
porém quase não nasceu,
quase nasceu trocada,
mas nasceu, enfim,
a cheia de graça seguidora do cristo,
amiga do cristo em íntimos bate-papos,
que ela nem sabia, quando nasceu,
que seriam tão profundos.
habitou mundos, foi feliz, foi triste,
bebeu, se anulou, foi anulada,
não teve onde morar, morou no violão,
e coube em caixas que não eram suas,
mas destravou pensamentos mudos,
deu voz à sua voz, à sua sombra,
ao seu espírito, ao seu eu,
sorriu, chorou, sorri, chora, se emociona,
vibra com ela e com os outros,
e se hoje se distrai,
sabendo que não é desse mundo,
é porque foi ao fundo do poço,
pra reconhecer a sua própria profundidade

Igor Ravasco 

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

terral

tenho estrelas na pele,
tantas quanto uma galáxia,
trago constelações na minha pele,
mas nenhuma tatuagem
nessa viagem interestelar.
acredito na impermanência
e nenhum desenho ou palavra
é tão permanente
a ponto de eu querer sofrer essa dor,
numa existência onde a dor
é uma experiência inevitável.
então escrevo versos
como quem ri, quem chora,
como quem geme,
quem grita ou quem late.
tatuo o eu das dores que pari
com a cor de flicts,
com dentes de chocolate

Igor Ravasco

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

-tomia

a autotomia é a autonomia
da automutilação.
mutilação espontânea
de partes do corpo
que nem sempre se regeneram,
mas a calda dos calangos sim.
a autotomia é, para o humano, a antimonotonia,
a atomização da palavra,
reduzida a finas partículas
e um caudal de imagens, de símbolos,
címbalos,  que nos lembram
que não somos lagartos,
mas somos poetas, somos gente
que perde, perde caldas, fragmentos,
espontaneamente perde partes,
num instinto de sobrevivência.

Igor Ravasco



segunda-feira, 28 de outubro de 2024

passado por água e sal

o que damos nome
e o que nem sabemos nomear
é a consciência do inconsciente,
ponte que se estende,
se entende, entre dois mundos,
decifrando mitos, derrubando muros.
minha lágrima, salgada como toda lágrima,
é mais que uma lágrima, é um mar.
e é no mar onde volto às origens,
onde volto a ser
 animal marinho.
é na lágrima, meu mar, que informo
tristeza, alegria, fantasia, carinho...
riqueza de sentido...
porque o mar é curativo,
e a lágrima que escorre
mostra que a cura vive dentro de mim.

Igor Ravasco

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

'latidos'

o não ter o que dizer (o não poder),
quando se quer falar, mas não se pode,
pois há saída, mas não ação,
sufoca.
o lado b do vinil que não faz sucesso
é um abscesso, tinta para uso externo,
sepulcro caiado, publicidade de margarina.
queria escrever um poema de amor,
mas esse é o embate...
escrevo como quem late
para uma bicicleta, uma caravana,
queria escrever para quem amo,
para quem ama, rima assonante,
mas escrevo como quem uiva,
talvez para a lua, talvez de dor.
e agora josé? e agora francisco?
qual é o buraco na tua rua?
qual é a trave no teu olho, qual é o cisco?

Igor Ravasco

terça-feira, 22 de outubro de 2024

bocanada

tusso, mas não fumo,
e, se tusso, pra mim é tácito
que minha tosse é emocional.
e eu sei, eu sempre soube,
que minha tosse é o acúmulo do não dito,
é o cúmulo de um eu aflito,
querendo aumentar os decibéis
de sua voz
com a autoridade de um locutor,
de um solo de um tenor,
de um trovão que antecede a chuva
que molha o solo.
tusso em busca de uma golada de ar fresco,
porque a respiração antecede a rajada
e o raio é certeiro.
preciso de ar puro, preciso de prana.

o ar é a razão.

Igor Ravasco

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

um, sete, um

pra não enganar ninguém,
repetir sempre faz bem...
não sou poeta nem artista.
sou um 171 das palavras,
um estelionatário,
faço um estelionato literário,
mas sem levar vantagens,
nem causar prejuízos,
além de dois segundos de perguntas.
sou apenas um reflexo,
um espelho de corpo inteiro,
um vigarista sem nexo nem interesse...
então, que fraude sou?
que golpe eu aplico?
que xou da xuxa é esse? 

I.R.

terça-feira, 8 de outubro de 2024

síntese

quero ser sintético, não tão sintático,
simpático, sem ser otário,
escrever este diário, quase rezando,
para um não-deus sincrético.
quero ser herético e semântico,
um não-romântico,
vibrando em sintonias quânticas,
em frases cômicas,
sob um céu cor de crômio.
não quero a hipotermia, nem a hipotenusa,
quero ver a medusa, de cabeça cortada,
me lembrando a estátua de pedra,
que um dia eu fui.

I.R.

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

intu(indo)

intuo teu sendo,
tateio tua senda,
tua percepção, fruição...
com gosto de fruta madura
colhida por fortuna no pé,
de pé... e acordado.
intuição é mais que pressentir;
é sentir...
e dar voz... (à própria voz).

I.R.