não há sóis,
não há sois,
nem eu nem vós,
ou voz... não há sons,
só o silêncio da guerra
e o passado de quem não tem vez.
há um nós... sós...
e um nó na garganta
em estado de s.o.s.
I.R.
não há sóis,
não há sois,
nem eu nem vós,
ou voz... não há sons,
só o silêncio da guerra
e o passado de quem não tem vez.
há um nós... sós...
e um nó na garganta
em estado de s.o.s.
I.R.
tudo começa
na areia,
área onde timidamente se molham os pés,
às vezes sem que se queira,
e passo a passo vamos,
panturrilha, joelho, coxa,
cintura, a água no peito,
nos ombros,
onde carrego tanta coisa...
mas não é com um mergulho,
com uma braçada,
nem mesmo numa remada,
que se estabelece intimidade.
é preciso se dar, além de receber,
é preciso ler, interpretar e se abrir
é um descobrir-se gigante,
sendo tão ínfimo.
I.R.
no dia a
dia da rotação,
talvez a rota do homem esteja rota,
numa profusão de discursos
sobre deus, sobre o amor,
mas com o desamor em curso em sua ação.
o homem arrota verdades
de um deus criado à sua semelhança,
um deus da desesperança,
contra seu semelhante,
o deus da fome, das armas,
da palavra que fere, da indiferença,
o deus de um homem
que prefere continuar roto
escrevendo um roteiro de ficção,
uma fake life com final feliz
I.R.
pairo um
poema,
porque posso parir
num papiro, num papel,
enquanto paro...
pairo numa gota de silêncio,
porque posso pairar,
parar, espairecer,
e não mais parecer,
mas ser o que sou.
afio a língua, amolo o olho,
procuro colo,
planto e colho,
sou alguém que está sendo
um dia de cada vez.
I.R.
na beira da
areia da praia,
por cima dos brejos
e nas encostas dos morros,
vão se estendendo seus becos,
suas poucas avenidas de traçado irregular,
suas travessas e ruas sem saída...
e minhas travessuras,
meus pensamentos ou o que vivo
talvez sejam só um reflexo de sua geografia,
de suas ramificações,
de seu crescimento desordenado
e agora vertical...
sou como o Arraial,
um labirinto que sempre termina no mar.
I.R.
a arte se
reparte em cores,
sons e cromossomos,
e cria uma unidade divisível
e impossível a olho nu.
o corpo nu
gera um universo de possibilidades,
na velocidade de um dirigível em chamas,
o que me chama a atenção pra fragilidade,
ou nossa intenção de transcendência
na obra, na reforma, na restauração,
óleo sobre tela, tear de tecelã,
clave de sol da manhã até anoitecer,
trabalho feito em madeira, em osso, em papel,
enquanto escrevo o que posso,
ou caminho a caminho de novos ângulos
sobre aquilo que não tem por quê.
I.R.
tenho pensamentos breves,
entrecortados,
gosto de poemas curtos e amores leves,
e já acreditei no amor romântico
com suas fantasias, farsas, farpas e dores.
já tive minhas doses de engano,
já menti pra mim,
mais do que pros outros.
enganei... me enganei... me iludi...
e agora lentamente adulteço,
aconteço de outras maneiras,
sem pose, sem posse, sem performance,
nem romance de sonho encantado.
só eu inteiro posso ser parceiro
(...)
amar é tão bom quanto ser amado
I.R.
a emoção do
momento
contrasta com a serenidade do agora,
esse à flor da pele
que me impele e se mostra possível,
a cabeça que já não finge demência,
o corpo que já não está dormente,
a mente posta na quietude
e nas inquietações...
e o coração...
esse que brinca como menino,
pula, salta,
se contrai e se dilata,
esse que está atento e se distrai...
o meu coração quica
como bola de borracha a caminho do gol
I.R.
não é uma
questão só de movimento,
mas de movimento com direção
(nem sempre definida)
não se trata da inércia do movimento,
mas de um movimento anti-inércia,
que vibra, que emociona,
e desmorona para construir,
desconstrói para erigir,
derruba pra levantar.
chegar não me importa,
quero abrir novas portas
viver o caminho,
acompanhado e sozinho,
onde o fui, o vou, o ia e o irei
são junto com o iria a minha condição,
a minha confissão
de que ainda sou nos textos de ir
‘eleuqa oninem euq moc otsog’ ri.
I.R.
se a
contagem do tempo não me importa,
existem convenções das que gosto,
não me diz nada 2024,
como não me disse 2003, 5784, 1986...
mas hoje, naquilo que a convenção
chama de 2 de janeiro,
me divirto por inteiro,
faço quarenta e nove,
num dia em que normalmente chove
e escrevo neste receituário
que vou a caminho
do meu primeiro cinquentenário...
(quero ter no mínimo dois)
I.R.