quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

pupa

tenho pensamentos breves,
entrecortados,
gosto de poemas curtos e amores leves,
e já acreditei no amor romântico
com suas fantasias, farsas, farpas e dores.
já tive minhas doses de engano,
já menti pra mim,
mais do que pros outros.
enganei... me enganei... me iludi...
e agora lentamente adulteço,
aconteço de outras maneiras,
sem pose, sem posse, sem performance,
nem romance de sonho encantado.
só eu inteiro posso ser parceiro

(...)
amar é tão bom quanto ser amado

I.R.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

taquicardia

a emoção do momento
contrasta com a serenidade do agora,
esse à flor da pele
que me impele e se mostra possível,
a cabeça que já não finge demência,
o corpo que já não está dormente,
a mente posta na quietude
e nas inquietações...
e o coração...
esse que brinca como menino,
pula, salta,
se contrai e se dilata,
esse que está atento e se distrai...
o meu coração quica
como bola de borracha a caminho do gol

I.R.

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

versar

não é uma questão só de movimento,
mas de movimento com direção
(nem sempre definida)
não se trata da inércia do movimento,
mas de um movimento anti-inércia,
que vibra, que emociona,
e desmorona para construir,
desconstrói para erigir,
derruba pra levantar.
chegar não me importa,
quero abrir novas portas
viver o caminho,
acompanhado e sozinho,
onde o fui, o vou, o ia e o irei
são junto com o iria a minha condição,
a minha confissão
de que ainda sou nos textos de ir
‘eleuqa oninem euq moc otsog’ ri.

I.R.

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

49

se a contagem do tempo não me importa,
existem convenções das que gosto,
não me diz nada 2024,
como não me disse 2003, 5784, 1986...
mas hoje, naquilo que a convenção
chama de 2 de janeiro,
me divirto por inteiro,
faço quarenta e nove,
num dia em que normalmente chove
e escrevo neste receituário
que vou a caminho
do meu primeiro cinquentenário...
(quero ter no mínimo dois)

I.R.

domingo, 31 de dezembro de 2023

novel

o velho ano novo
chega de novo
pra desenrolar o seu novelo.
quero vê-lo
e vivê-lo como ainda não vivi,
quero ser um verso,
um personagem de uma novela,
uma caravela sem rumo,
alternando ventos e calmarias
em mares novamente navegados.
quero novos dias, novos meses,
quero sempre e quero às vezes,
a inconstância, não a inconsistência

I.R.

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

ser e não ser

escrevo um poema sóbrio
de amor próprio,
escrevo sóbrio,
um poema próprio de amor,
mas não escrevo só pra mim,
e descrevo um querer contido, 
e contigo, 
romântico e impróprio... 
e versifico o que não tem nome,
verifico o que me consome, 
uma puta palavra pura que ressoa... 
escrevo pra mim, 
para minha pessoa, 
tomando um mate
embaixo do ventilador 

I.R.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

'en aras del mar'

remo num mundo de peixes,
tartarugas, estrelas do mar
e cavalos marinhos...
remo no reino das águas claras,
sinto o mar com seu acalmar,
e a ondulação que sara
e sustenta a canoa
como uma deusa polinésia,
movimento que gera movimento...
mente sã no meu corpo
que nem sempre faz o que deve,
enquanto navego o momento.
e quero remar, com o cuidado de não me distrair
por um poema que começo a escrever,
quero sarar, com o agregado de sorrir,
nesse novo sistema de viver...

alegria e esperança no voga,
temperança como tempero no leme.

I.R.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

seta

sou flecha disparada ao ar
sem direção,
interpretando como alvos
o que encontro pelo caminho.
viver é interpretar o sem sentido
e encontrar um sentido próprio,
que não é o das coisas,
que de fato não têm.
sou flecha sem curare,
sou flecha sem cura,
abrindo brechas na minha loucura,
na minha sanidade...
sou flecha sem tempo, sem idade,
porque o tempo não existe,
o que há é a existência.
e a resistência de que serei flecha voando
até a hora de então cair.

I.R.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

"umbíguo"

prefiro agir sem dúvidas,
sabendo que posso errar,
me arrepender,
prefiro não duvidar ao agir,
e desfrutar... e aprender...
estabeleço minhas leis
e contra elas me rebelo,
numa autoinsurgência
onde me deponho do poder
para entregá-lo a mim.
é preciso derrubar os próprios tiranos.
eu preciso derrubar os meus próprios planos
e florir... e aflorar...
e viver esse afloramento,
essa ressurgência que me nutre,
onde abandono as certezas,
para abraçar as dúvidas...
e então agir.

I.R.

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

random

somos seres aleatórios,
dependentes do acaso de decisões
que levam a outras decisões, outros casos,
numa espiral de vida, de aspirações.
inspira... expira... suspira...
o suspiro é um doce,
que prefiro com doce de leite.
somos seres aleatórios,
imersos em elucubrações,
imensos em pequenas loucuras,
insanidades instantâneas de polaroides.
somos seres aleatórios
escrevendo histórias casuais que se repetem,
se transformam, se reescrevem,
que viram poemas, contos, crônicas,
livros sagrados, receitas de pizza,
bulas de remédio,
redações do enem ou questões de vestibular...

I.R.