quinta-feira, 10 de agosto de 2023

simulacro

à sombra da vela,
não sobra coragem,
e a boca que beija, que cala,
que grita e que ri, saboreia a miragem - 
espelhismos coloridos -,
flor de ganja, cor de açaí...
barco que soçobra,
que cobra o (in)seguro da obra em construção.
navegar nem sempre é precisão,
e minhas frações compostas
se mostram repartidas entre sargaços,
num mar de algarismos e algoritmos
no ritmo das ondas, seguindo as estrelas
de uma via láctea imprecisa.
preciso da vela pra iluminar a caverna,
ou de uma lanterna que brilhe como o sol...

ou como sou

I.R.

domingo, 6 de agosto de 2023

pragmatismo poético

eu não sou um ornamento rococó,
que é bonito, mas muito rebuscado,
gosto do verso livre emocionado,
das palavras em uso e isso só.

não quero afinação pesada em dó,
mas tento estar, no mínimo, afinado,
me quero leve, em vez de preocupado,
me quero vivo, enquanto não for pó.

eu-lírico não lírico, mas prático,
vivo versos em modo pragmático,
e buscando a eficácia todo dia,

recebo o que me chega com consciência,
que os problemas se tornem eficiência,
eu-prático em estado de poesia.

I.R.

terça-feira, 1 de agosto de 2023

AI de mim

meu amor, por mais genial,
não há inteligência artificial
que sinta a emoção de escrever.
as máquinas manipulam as palavras,
mas não sentem seu sabor,
escrevem poemas melhores que os meus,
que só faço rascunhos,
mas não sentem meu sofrimento,
não vivem o frisson da paixão
nos poemas que escrevo pra você.
a tecnologia não finge que é dor,
a dor que deveras sente, porque não sente.
não tem magia, suingue, borogodó,
tem o mais vil charlatanismo da palavra morta.
chatgpt, bing, bard... prefiro ser o bardo, enfim,
o que anuncia o que já não guardo,
e te entrego em versos um pedaço de mim.

I.R.

sexta-feira, 28 de julho de 2023

policromia

a vida é uma viagem
onde só temos passagem de ida,
onde tudo é passageiro,
transitório,
e onde transitamos
amarguras, amores e problemas
entre risos e abraços,
choros e poemas,
no quebra-cabeça de fazer a nossa mala.
amá-lo, amá-la...
é preciso coragem,
vivenciar a vertigem,
enfrentar as dores que nos atingem
botar o pé na estrada
colorindo nossa existência...

mas é preciso paciência.
...

vamos um dia de cada vez.

I.R.

sexta-feira, 21 de julho de 2023

ábaco

a cabeça do poeta faz cálculo com as palavras,
e se palavras não são números,
são inúmeros universos,
incalculáveis interpretações...
calculo verbos, pronomes, conjunções,
conjuro substantivos em vez de equações,
equaciono períodos compostos,
equilibro apostos,
e não aposto nos vocativos
ou nos períodos simples.
e falo das coisas, talvez de mim,
não como operação aritmética,
evitando a arritmia e a homilética,
me apoiando nos dicionários...
mas não escrevo diários.

quando termino, o poema é teu,
e eu já não tenho nada a ver com isso.

I.R.

quarta-feira, 19 de julho de 2023

meu coração

tenho um coração
que não sabe de distâncias,
não mede centímetros
milímetros e quilômetros,
não conhece tamanhos,
hectares, acres e alqueires.
tenho um coração que segue o sol,
que nasce na paraíba e se põe no acre,
um coração sem lacre,
onde a luz que o ilumina,
e clareia a negridão da noite
também o desbota.
tenho um coração que não sabe
da dicotomia do doce e do amargo,
mas da luta entre o suave e o rascante,
tenho um coração itinerante
que não sabe de saberes,
mas se entrega entre sabres e sabores

I.R.

quinta-feira, 13 de julho de 2023

sabor do vento

liberdade, quero sorver-te,
como sorvete na casquinha,
sentando na calçada,
esperando um trem
que não tem hora pra chegar. 
liberdade, quero abraçar-te, 
como arte atemporal, 
temporal de fótons, 
fotos em pose, polaroides, 
selfies de posse de um sorriso, 
de quem chega sem aviso
sem correntes nas mãos. 
liberdade, quero-te, 
recatada e erótica,
prática e teórica, 
energia eólica soprando onde quer. 
mas, liberdade, não venha... 
pode deixar que eu vou

I.R.

terça-feira, 11 de julho de 2023

costões rochosos

ela se diz doidinha e eu discordava,
mesmo sabendo que todos
somos e devemos ser um pouco.
então tá, ela é doidinha,
e é garcinha,
não pela garça,
mas pela graça de brincar.
ela é caos e ocaso,
amanhecer e calmaria,
cal viva e mar, marejando vida,
mexendo comigo nas minhas vivências,
no decorrer dessa viagem...
onde vou e venho, onde ia e vinha,
texto de reticências...

o que são as entrelinhas
senão a própria mensagem?

I.R.

segunda-feira, 10 de julho de 2023

ciclos

uma ideia que se descola
e se desloca,
que requer escola,
sequer escolha...

escolha livre o que é que se quer.

a ideia não é a louca,
é a que aloca,
pipoca de sal e doce...

decida no malmequer.

uma ideia que não se idealiza,
pois a consciência está na pergunta
na dúvida que se realiza
na forma total como se pôs...

o que vem após?

I.R.

quarta-feira, 5 de julho de 2023

gris

um céu cinza
de uma manhã cinza,
com um coração cinza,
que segura com pinça
o cinzel que entalha...
o desejo que se retalha...
ah, o desejo,
o que vejo, o que interpreto,
a ânsia, o longe, o perto.

talvez a resposta esteja no mar
onde desaba a tempestade.

I.R.