terça-feira, 19 de agosto de 2014

chute

Foto: Luiz Navarro

e naquele momento
em que a bola está suspensa
entre o goleiro, a emoção,
o suspense e o artilheiro,
podemos ouvir um coração que bate
ou o ar que entra e sai dos pulmões...
só isso corta o silêncio,
não a ansiedade.
a bola viaja enquanto as variáveis
são embaralhadas
e postas sobre a mesa...
não se trata só de comemorar
um gol ou uma defesa,
as bolas também batem na trave,
e os goleiros às vezes dão rebote.

I.R.

domingo, 17 de agosto de 2014

em nossas mãos

Foto: Patricia Mousinho

se em nome da paz,
se em nome do amor,
alguém quer impor suas ideias,
seu modo de vida, suas crenças,
seus valores e suas preferências,
esse é um ato de violência,
e uma declaração de guerra.
a liberdade imposta pelas armas
não é liberdade,
é uma mentira que encerra em si o ódio,
que encerra o homem num muro de morte,
que o deixa livrado à própria sorte...
mas, e nós,
o que seguramos em nossas mãos?

I.R.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

saindo do muro

Foto: Fernando Kinukawa

precisamos nos libertar
das caixas que nos estreitam a visão,
que nos reduzem o pensamento;
devemos nos liberar
das caixas de nossas mãos,
prisões que nos impedem agir,
vemos, mas não podemos tocar,
nosso movimento, enfraquecido,
perde os dedos e a sensibilidade;
devemos nos livrar
das caixas de nossos pés,
sapatos incômodos
que amoldam nossos passos
a caminhos estranhos a nós,
mas aos que nos entregamos
como robôs.
precisamos arrancar
a caixa do nosso peito,
a caixa que nos oprime,
a caixa que não somos,
mas que aceitamos quando nos botam,
as caixas que nos embotam,
onde dentro há um coração quadrado
com medo de se molhar
e de se rasgar como papelão.

I.R.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

quatro versão um

mil quatrocentos e sessenta
ou sessenta e um,
contando um ano bissexto,
de mais alegrias que tristezas,
de ensino e aprendizagem,
tantos dias... e um balanço feliz.
tantos dias, tanta vida,
e uma história,
entalhada no coração
de que valeu à pena
cada instante até aqui.

I.R.

quatro versão dois

nem o amor nem um relacionamento
condicionam a que dois sejam um.
dois são dois,
e sempre serão dois...
em todo caso, serão três, quatro, cinco,
às vezes onze,
mas nunca um.
essa é a chave da encruzilhada,
se seremos felizes sendo dois,
se seremos felizes
cada um pelo seu lado.
o amor romântico vende bem nos filmes
e nos romances água com açúcar,
a vida real começa
depois do beijo do final feliz.

I.R.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

mickey monster

Foto: Luiz Alfredo Ardito

entre muro e cerca
me estampo,
e se não me espanto
é por saber que estou cercado
de força interior.
com chapéu de minnie,
e de olhos esbugalhados
sei que os grandes estão acuados,
e me torno atena,
uma antena, um ponto de contato,
sou minerva
que faz careta
como arma de sabedoria
quando os caretas da cavalaria
avançam sobre mim.

I.R.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

o eterno deus mu

Foto: Marisa Versiani Formaggini

nossas transformações
devem partir de dentro pra fora,
pois a revolução começa no íntimo,
na intimidade do coração,
não na pintura da cara.
mas e se a cara pintada 
e o corpo enfeitado
forem apenas reflexo de um interior?
aprendo que não devo julgar.
viver e deixar viver
é mais do que uma máxima,
é o máximo de responsabilidade
pela liberdade de meu semelhante.
é estar atento a cada instante
para dia a dia me desfanatizar.

I.R.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

sombreado

Foto: Jose Vilar Jordán

o que fui
é sombra de um caminho pisado
que não chega a pisar
o que serei.
mas as linhas de partida
ou de chegada
só encontram sentido na estrada
e não nas linhas por si só.
fui e serei só,
e só sou só
porque dessa solidão
pode nascer a emoção
de me achegar ao outro
que também caminha sozinho.

I.R.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

quantos sou?

Foto: Beto Andrade

quantos sou (?)
é o que me pergunto...
e me reconheço frágil
ou me desconheço forte,
indo para o sul
sempre buscando o norte,
sou poeta e professor,
sou pai e filho,
irmão, amigo e amor,
sou palhaço
e o que não sabe o que faço;
sou vários,
mas não sou todos,
sou muitos,
e não sei tudo.
talvez não haja cadeira suficiente
para meus eus.

I.R.

sábado, 2 de agosto de 2014

visões do mesmo

Foto: Maria Cecilia S. Martins

o seu ângulo
não é o meu ângulo,
e o que você vê,
por mais que pareça
o que eu vejo,
não é o mesmo.
talvez seja impressão.
talvez? não.
é a impressão gravada em cada retina
do que capturamos no que vemos.
é a impressão digital intransferível
de que o mesmo
não é mesmo o que parece ser.

I.R.